domingo, 31 de julho de 2011

Churrasco da ETE FMC 1996: um vídeo para matar saudade dos antigos colegas

Em 1996, fazíamos parte da TV ETE e produzimos este vídeo durante o "churrasco do terceiro ano." Um defeito no microfone acabou deixando a reportagem sem som mas vale a pena assistir para matar saudade daquela turma que marcou Santa Rita no início da década. O ponto alto da gravação é quando o reporter Fernando Kallás joga o microfone no chão e pula de ponta no Rio Sapucaí. Mal sabia ele que, anos mais tarde, se tornaria um grande jornalista.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O pioneirismo do estimado professor Teixeira

Onde o senhor nasceu?

Eu nasci no município de Careaçu em 1935. Vim para Santa Rita em 1948, no segundo semestre. Eu era interno do Instituto Moderno de Educação e Ensino. Depois do científico, comecei a estudar direito e me formei na primeira turma de Direito da faculdade de Pouso Alegre.

O senhor foi prefeito de Santa Rita de Sapucaí?

Eu fui prefeito, professor e advogado. Como prefeito, administrei por pouco tempo, porque foi um mandato “tampão”. Fui eleito em dezembro de 1970 e tomei posse no dia 31 de janeiro de 1971.

Qual foi a grande obra do seu governo?

Quando eu assumi a prefeitura, o principal objetivo foi cuidar de abastecer a cidade com água tratada. Logo no início do meu governo, começamos a fazer uma sondagem para que pudéssemos aumentar a quantidade de água. Uma possibilidade era tratarmos a água do Córrego do vintém, mas se a prefeitura captasse lá teríamos dois problemas: naquela região existiam muito chiqueiros e também faltaria água para os moradores daquele bairro. Passamos então a estudar a possibilidade de captar a água do rio. No começo eu não achei boa a ideia, porque sabia que a população não iria aceitar. A cidade não estava acostumada a beber  água do rio. Então eu fui a Pouso Alegre para conhecer o tratamento. A água de lá já era captada do rio. Eu gostei de ver como o sistema era feito. Aquele processo era novo para a nossa região, mas a água ficava mesmo limpinha. Eu vi uma grande vantagem nessa forma de tratamento, pois sabia que jamais faltaria água no nosso rio.

Como foi o andamento da obra da estação de tratamento de água?

No mês de maio, eu conversei com os vereadores para realizarmos um estudo sobre o caso e o engenheiro, Dr. Wellington, desenvolveu um projeto para abastecimento de uma cidade de 50 a 70 mil habitantes. A população da cidade, naquele tempo, era de 17 mil habitantes. Ao terminarmos o projeto, tivemos um novo desafio: a parte financeira. O orçamento da prefeitura na época era de 700 mil Cruzeiros e só para captar a água e levar à estação de tratamento ficava em 1 milhão e 200 mil cruzeiros. Então nós fizemos uma estação bem compacta, aproveitamos uns canos de ferro que estavam na entrada do campo de futebol e começamos a executar a obra. No dia 7 de setembro de 1972, inauguramos a estação. Nos primeiros dias, a água saía suja, porque fazia muito tempo que os canos estavam vazios. Na inauguração, o Sr. Waldomiro publicou um artigo no jornal com a manchete “Que águão!”. Alguns dias depois, ele voltou a escrever sobre o assunto no jornal, com o título “Que barrão!”. Surgiu muita discussão sobre o assunto na época, algumas pessoas eram contra. Chegaram até a organizar um grupo para impedir a obra, mas o projeto era muito moderno para a época.  Eu já estava começando a ficar meio descrente de que iria funcionar. Lembro que um professor do Inatel até chegou a me perguntar se iria mesmo funcionar porque, se não desse certo, ele iria morar em Pouso Alegre. No dia em que a água saiu limpa, nós até fizemos uma festa!

A cidade mudou muito com início do funcionamento da estação de tratamento?

Quando o engenheiro deu a obra por encerrada, ele comentou comigo: “A cidade crescerá muito a partir de agora”. E foi o que aconteceu. Até então a cidade era bem pequena. Nós não tínhamos condições de crescer  por não termos recursos de escoamento de água. Com isso, a cidade começou a crescer e começou a se desenvolver. Existiam algumas indústrias, mas não muitas. Tínhamos a Estamparia, a Malharia Marlene... A Cooperativa era a maior empresa daqui.
Como foi o desenvolvimento nesse período?

Naquela época, estava sendo implantado o Inatel. Aquele bairro em torno da faculdade não existia até então. Era um pasto. A Escola de Eletrônica já estava operando. Com o funcionamento das duas instituições, muitos jovens começaram a vir para a cidade. As pequenas experiências começaram a dar origem a pequenas indústrias, como a Linear e a Leucotron - empresas que hoje são muito grandes.

O senhor é um dos fundadores da FAI?

Eu fui uma das pessoas que ajudaram a implantar a faculdade. Fui vicediretor da instituição. A criação da FAI foi muito difícil. Uma conselheira federal levantou uma preliminar, apontando que a nossa região não comportava uma faculdade de administração. Antes, ela já havia feito a mesma coisa em relação ao Inatel. O fato é que ela estava legislando em causa própria. Sua família era proprietária de uma faculdade em São Paulo e muitos alunos da região iam estudar na instituição dela. No início, havia apenas o curso de administração. O curso de informática surgiu quando a faculdade começou a trazer professores de outras cidades e, um deles, resolveu implantar mais uma especialidade.

O senhor também modernizou a telefonia local?

 Santa Rita foi a primeira cidade da região que recebeu o telefone para ligação com Discagem Direta à Distância (DDD). Até então, a telefonia na região inteira era feita à manivela. Algumas vezes, você precisava fazer uma ligação para Belo Horizonte e tinha que esperar até o outro dia. Então veio um diretor da Telemig explicar que estava fazendo um projeto para a região e nós resolvemos apoiar a iniciativa. Desde então, para fazer uma ligação a longa distância, bastava ligar para o número do assinante. Não precisaríamos mais pedir a uma telefonista. Nessa época, nem em Poços de Caldas existia um recurso como esse. Fomos os primeiros.

O senhor também foi professor?

Eu dei aulas de 1955 até 1988. Comecei a lecionar na Escola Técnica de Comércio. Eu fui professor de Português e de noções de Latim. Quando eu fui diretor da Escola Estadual Sinhá Moreira, chegamos a ter 1200 alunos. Havia tantas turmas que chegamos a contratar professores de fora. Oferecíamos um bom curso aos nossos alunos. Eles eram muito bem preparados.

O que o senhor pensa sobre Santa Rita do Sapucaí?

Santa Rita é uma cidade muito tranquila para se viver. Hoje, nós temos alguns problemas, mas não chega, nem de longe, aos problemas de outras cidades. Para você ter uma idéia, nós já passamos 10 ou 12 anos sem ter um único crime. Eu que era um advogado criminal tive que passar para a vara cívil porque não tinha trabalho na cidade. (risos)

Esta matéria é um oferecimento de:

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Viva Santa Riiiiiita! Entrevistamos o querido Monsenhor José

Ossos do ofício: Monsenhor José abençoa um automóvel.
O senhor é santarritense?

Vivi a minha vida toda aqui. Apenas nasci em Itajubá, no dia 20 de outubro de 1921, quando vim para Santa Rita, onde fui educado. Eu estudei no Grupo Delfim Moreira. Sou filho de Vitor de Souza Pinto e Maria Carneiro Pinto. Meu pai começou sua vida do nada, teve suas dificuldades, mas lutou bastante. Aqui em Santa Rita, ele chegou em 1932 e conseguiu ir vencendo. Foi presidente dos Vicentinos por muitos anos, foi também presidente da Fundação do Asilo e gerente do banco Mineiro de Produção. Assim, ele pôde dar a mim e a meus irmãos, que somos em sete, uma educação muito primorosa. Foi aí que nasceu minha vocação para o seminário. 
Recepção ao governador Aureliano Chaves.
 Quando o senhor foi para o seminário?

Fui pro seminário em 1934. Eu estudei em Pouso Alegre e depois em Mariana. Minha ordenação aconteceu no dia 8 de dezembro de 1946, em Pouso Alegre. Trabalhei um ano por lá em um tempo em que precisava ir a cavalo até Congonhal, onde eu era vigário. Eram duas horas e meia de viagem. Em 1948 eu fui para Paraisópolis, onde ajudei o Monsenhor Dutra. Seis meses depois eu fui transferido para Brazópolis e depois fui para Conceição dos Ouros. Em 1953, o bispo Dom Otávio de Miranda me enviou aqui para Santa Rita. Fui pároco da cidade por mais de 40 anos. Nesse tempo, pudemos realizar muitas coisas. No início do meu trabalho aqui na cidade, tivemos o seminário redentorista por oito anos, onde os padres ajudaram muito na paróquia. Depois vieram os jesuítas, para tomar conta do Instituto Moderno de Educação e Ensino e também da Escola de Eletrônica. Todos eles ajudaram muito, como o Dom Vaz, que trabalhou conosco por onze anos e muito fez pela nossa vida paroquial. Tivemos também uma grande ajuda do Padre Raul que trabalhou bastante e nos apoiou, e dos outros padres jesuítas que deram, com alegria, suas bonitas participações para a nossa cidade.
A primeira missa.
O senhor trabalhou muito durante todo esse tempo, não é?

Aqui em Santa Rita, precisamos realizar trabalhos de grande responsabilidade, como administrar a Paróquia e cuidar das capelas rurais. Em um determinado momento, quase fizemos novamente a Igreja Matriz, em uma reforma que aconteceu de 1972 a 1985. Tivemos uma grande ajuda do senhor Huet Moreira, do Dom Vaz e recebemos uma força muito grande do capitão Reginaldo Lemes. Tínhamos uma comissão muito bem feita, que nos possibilitou reformar toda a igreja, aproveitando a parte de baixo para criarmos salas e escritórios. Algum tempo depois, compramos a Escolinha Nossa Senhora de Fátima, que pertencia à Companhia Sul Mineira de Eletricidade e adaptamos o local para que pudesse funcionar o nosso centro catequético. Por fim, compramos o centro de pastoral Dom João Bergese, que nós adquirimos com muita dificuldade.
Do alto do Santo Cruzeiro, Monsenhor José abençoa a cidade.
A paróquia teve um papel importante na educação da cidade?

Nós, primeiro, fundamos a Escolinha de Fátima, com a ajuda de Dona Sinhá Moreira, que passou a fazer parte da Fundação Educandário Santarritense. No começo, nós oferecíamos ensino primário naquele local. Mais tarde, fizemos a aquisição da Escola de Comércio (hoje CP1), quando a paróquia comprou as ações da instituição. Depois, com Francisco Magalhães, Antônio Teixeira e Antônio Américo Junqueira, tiramos a ideia de uma futura faculdade de administração de empresas. Nós demos os primeiros passos da reconhecida FAI que temos hoje. Nessa ocasião, tivemos que ir a São Paulo, conversar com o pessoal da Fundação Getúlio Vargas. Eu tive que viajar dirigindo o fusquinha da paróquia, porque ninguém tinha carro na época. Nós voltamos lá muitas vezes depois para buscar recursos e orientação para formar a nossa faculdade.  Começamos com muitas dificuldades, mas ficamos felizes em saber que ela desponta hoje como uma das grandes instituições do país. Não podemos deixar de citar a grande colaboração que tivemos, mais tarde, do Padre Ramon que teve papel fundamental na construção do primeiro prédio da FAI e também na implementação do curso de informática, para que pudéssemos ter uma faculdade mais adiantada.
Acompanhando as reformas da Igreja Matriz.
Para finalizar, um bate-bola:

Qual é o seu time do coração?

É o São Paulo. Eu sempre gosto de chegar em casa e acompanhar os jogos, quando tenho um tempinho.

O senhor torce para algum bloco de carnaval?

A minha família gosta muito do Ride, mas eu prefiro ficar neutro. (risos)

É verdade que o senhor nunca revelou em quem vota?

Eu nunca contei em quem eu voto. Eu preciso ficar neutro para não influenciar as pessoas.

Conte-nos uma grande emoção de sua vida?

Foi a Festa de Santa Rita de 1957. Nessa ocasião, a Dona Sinhá foi uma das festeiras e realizou um banquete, para mais de 400 pessoas que não tinham condições. Grandes mesas foram colocadas em frente à igreja para recepcionar a população. Foi muito bonito.

O senhor considera Santa Rita uma cidade tolerante em relação às religiões?

Nós respeitamos todas elas, porque somos todos irmãos. Somos todos filhos do mesmo Pai. Um exemplo é que moro bem ao lado da Maçonaria e me dou muito bem com eles. São todos meus amigos e eu os quero muito bem.
Monsenhor José também é filho de Deus: pulando onda na praia.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Banco, o Bar e a Banca

O tradicional prédio localizado à Praça Santa Rita, número 88, já foi cenário de muitas histórias. Construído em um dos pontos comerciais de maior movimento e visibilidade da cidade, o local já foi Banco, Bar e hoje abriga a famosa Banca de Revistas do Chico Caruso.
O Banco

Ao visitarmos o interior do estabelecimento, que ainda guarda formas bem próximas da construção original, podemos notar um detalhe que chama a atenção de quem o visita: as grossas barras de ferro que oferecem segurança ao recinto. Tais barras são da época em que o local abrigava o “Banco Popular Sul de Minas S/A”. Fundado no dia primeiro de julho de 1923, por José Pinto Vilela, o estabelecimento teve como primeiro presidente o Dr. Eupídio Costa e como primeiro gerente o Sr. Cezar Carneiro (imagem de rodapé).

Nos primeiros dois anos de funcionamento, o Banco conseguiu duplicar seu capital inicial de 500 contos e mereceu até uma menção do então Ministro da Fazenda. Alguns anos depois, uma grande crise afetou o Banco Popular, obrigando seus acionistas a venderem suas quotas, o que ocasionou o fechamento do estabelecimento.

O bar

Mais tarde, o prédio se transformou em bar, de propriedade de Clemente Figueiredo, pai do santarritense Nuno Figueiredo.  Em outros tempos, o local pertenceu também ao Sr. Júlio, que montou um estabelecimento comercial muito bem frequentado. O Bar do Júlio, como era conhecido, vendia um sorvete delicioso - feito no próprio local - que os habitantes da cidade costumavam comprar antes de iniciar as sessões de cine-ma. Nos fundos do estabelecimento havia também uma mesa de sinuca que era disputada, antes do almoço, por santarritenses como Paulo do Putieu, Rubens Amaral e Bié Capistrano.
A sinuca

Reza a lenda que, certa feita, alguns santarritenses passavam suas horas de folga em torno da mesa de sinuca, quando viram entrar um rapaz pequeno, aparentando uns 50 anos. O homem deixou as malas em um dos banquinhos que contornavam a mesa, foi até o balcão e pediu algumas fichas. Quando chegou sua vez de jogar, o homem convidou um dos presentes para acompanhá-lo e ouviu como resposta a seguinte frase: “Eu só jogo valendo cobre!” O homem aceitou, mesmo sem saber que iria jogar contra um dos maiores jogadores de Santa Rita. Perdeu a primeira, perdeu a segunda, a terceira, até perder a paciência e resolver tirar tudo o que tinha na carteira e colocar em cima da mesa para tentar recuperar o dinheiro. O rival santarritense, com um riso nos lábios, nem tinha a quantia total que havia sido colocada em jogo, mas resolveu pedir emprestado aos amigos que não pensaram duas vezes em favorecer a aposta. Quando o jogo teve início, o homem desconhecido, que até então tinha levado um couro atrás do outro, parecia se transformar em um mestre da sinuca. Sem errar uma única tacada, matou todas as bolas, pegou o dinheiro e tratou de sumir dali. Só depois, os assíduos frequentadores do Bar do Júlio, ficaram sabendo que aquele homem era o famoso Pernambuco. Um campeão de sinuca que ganhava a vida dando golpes pelas cidades brasileiras. Por outro lado, se o tal Pernambuco ganhou uma bolada, o santarritense que havia apostado todo o dinheiro que havia recebido com a vendas dos porcos  que criava, também ganhou. Ganhou um apelido. Por ter ficado com a fama de perder até as cuecas na sinuca, o adversário passou a ser conhecido, desde então, pela alcunha de “Zé Cueca”.
 
Jogatina

Em um tempo em que o jogo ainda não era proibido, o Bar do Júlio oferecia nos porões do seu estabelecimento um Bingo que premiava os vencedores com dinheiro. O local também era palco de apostas em um jogo - pouco conhecido atualmente -  e que era conhecido como “Buzo”. Os antigos frequentadores da casa contam que o porão ficava repleto de santarritenses em busca de dinheiro fácil.

A banca

A informação que tivemos foi que o último dono de bar que trabalhou naquele local foi o Sr. Gumercindo. Há quinze anos, Chico Caruso inaugurou por ali sua casa lotérica que depois foi transformada em uma revistaria. Hoje em dia, Caruso dispõe também de um Café, muito bem frequentado pelos habitantes da cidade, e que oferece excelentes variedades de lanches, bebidas quentes e tortas. Um local para bater papo, saber das novidades e encontrar os amigos.

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Carta de uma santarritense na Noruega

Hoje temos uma reportagem especial, da Noruega. A Santarritense Renata Barros é designer gráfica e tem 29 anos. Ela se mudou para Oslo em 2007, para fazer mestrado. Encontrou uma cidade tranquila, pessoas felizes, bons amigos e o amor da sua vida, com quem tem hoje uma filha. Rê estava perto do local da bomba. Seu prédio tremeu e teve janelas quebradas. Ela diz que se sentiu tão agredida com o atentado como qualquer outro habitante do país – norueguês ou não. E escreveu a carta abaixo aos amigos que buscavam notícias.
 
Queridos amigos

Queria agradecer pelos emails carinhosos que recebemos, pelas ligações, pelo amor que vocês mandaram de todos os lugares. Vocês não imaginam o quanto isso é importante, independentemente de bomba, de malucos, de tristeza, mas principalmente quando a gente se sente tão frágil numa situação como esta. Aqui a coisa anda meio casca, todo mundo ainda tentando entender, digerir o que aconteceu.

A Noruega é o país cor de rosa, lembram? Ninguém aqui é acostumado a ter medo. Ninguém tem medo de ser assaltado, não tem medo de ter seu espaço privado invadido, de sofrer violência. E o tal Anders detonou uma bomba enorme que destruiu 4 ou 5 prédios de ministérios, conseguiu ter o sangue frio de assassinar 68 adolescentes que, provavelmente, estavam se sentindo seguros por estar tão longe.

As histórias que lemos na mídia, os relatos dos adolescentes que sobreviveram são chocantes, tristes, apavorantes. Meninos e meninas de 16, 18 anos que se fingiram de mortos debaixo dos corpos de seus amigos, os que se barricaram dentro de uma casa e viam pela janela seus amigos serem assassinados. Todas as noites, quando vou dormir, essas imagens ficam passando pela minha cabeça. É tudo tão absurdo! Que mundo é este?

Eu não acredito em guerra. Não daria minha vida por causa alguma. Já tive discussões intermináveis com amigos que trabalham no Exército sobre a importância da guerra quando necessária para se manter a paz. Eu entendo, logicamente, mas acho que é porque não consigo ir pro macro da guerra, para mim cada pessoa é um universo enorme de outras pessoas e a vida é preciosa demais. Uma ou 76 pessoas mortas, cada uma delas tem pai, mãe, amigos, trabalho, um mundo de amor do lado. Acho chocante que inocentes percam a vida por um motivo estúpido, por uma causa da qual eles são tão alheios, que eles não escolheram, nunca escolheriam.

O louco passou nove anos escrevendo um manifesto, que contém mais de mil e quinhentas páginas. Calculou tudo perfeitamente. Começou a tratar seu corpo como uma máquina. Estudou a quantidade exata de esteroides que não o deixariam ter medo, sem diminuir a potência e viciar seu corpo. Citou as verduras e legumes que precisou comer para contrabalançar o uso dos remédios.

Explicou com detalhes a facilidade (e que facilidade!) que teve para fazer a bomba. Previu tudo. Inclusive o atual momento. De acordo com seu documento, o massacre é apenas um meio para que ele consiga se tornar um “mártir”, alguém com “um palanque para o mundo”. E, de fato, o assassino pediu que seu julgamento fosse a portas abertas. Um certo dilema para um país que sempre prezou pela liberdade dos direitos: deixamos ele conduzir o seu plano e respeitamos o seu direito de cidadão, ainda que arriscando que outros malucos se inspirem? Ou fechamos a porta, ignoramos seus direitos e impedimos que este louco fale com mais gente? Ainda bem que fecharam a porta, sob o argumento oficial de que ele dizia ter cúmplices do lado de fora.
Apesar de todo seu cálculo, o plano do assassino tem uma falha. Ela reside justamente num ponto: esse moço é psicopata e não entende, de fato, a realidade. Ele acredita que o que fez foi cruel, mas necessário, ele acredita que iniciará uma revolução, que a matança será entendida, será replicada. Em seu manifesto, ele diz que o momento mais difícil pelo qual ele passará será quando for pego. Ele “precisa não se curvar, não se enfraquecer”.

Sinceramente, acredito –­ e espero – que ele não consiga inspirar mais pessoas e, pelo contrário, talvez faça alguns extremistas de direita repensar sua responsabilidade e influência sobre mentes doentias. A propósito, um dos bloggers no qual ele se inspirou – e que cita várias vezes no manifesto – fez ontem uma declaração pública de que o atirador é  um “psicopata violento”. O editor de um dos sites de extrema direita no qual ele era um participante ativo deu uma declaração pública de que, mesmo com o direito de liberdade de expressão, talvez seja importante que sites assim tenham algum tipo de edição, ou cuidado, pelo menos.

Se existe uma coisa boa nisso tudo é que os racistas de plantão precisarão repensar um pouco a frase “nem todo muçulmano é terrorista, mas todo terrorista é muçulmano” e outras posturas. As pessoas precisam entender que o problema não é a religião. O problema é o extremismo. Então sem essa de dizer: “ah, o cara é cristão!” O cara é muitas coisas, mas foi a loucura que o fez cometer os atentados. Infelizmente, tolerância, busca por entendimento, paciência, nesses nossos tempos, são ouro.

Eu estava a quatro quarteirões da bomba, meu prédio chacoalhou, janelas quebraram nos primeiros andares. Eu achei que o prédio fosse desabar, desci as escadas na maior velocidade do mundo. Muito estranho ver um pânico coletivo, pessoas correndo, chorando, ninguém entendendo o que acontecia. Deixa a gente se sentindo desabrigado, desprotegido.

Mas problema pequeno, o meu. Tenho alguns dos meus queridos perto de mim, e todo dia de manhã deito por alguns minutos entre meu marido e minha filha e sinto o maior amor do mundo. Falo com meus pais e minhas irmãs e sinto tudo de bom. Vejo o que meus amigos fazem e me encho de orgulho. Recebo o carinho dos daqui também e me sinto sortuda e feliz.

Tudo isso me faz querer escolher os problemas reais. Deixar o que não importa de lado.
Beijos a todos

terça-feira, 26 de julho de 2011

A incrível lenda da Cruz das Caveiras

(Um conto de Cônego Carvalhinho, retirado da obra “O Menino do balaio”)

Cumprindo a minha missão de padre e pastor de almas, um dia fui visitar a capelinha da Cruz das Caveiras. Perguntei a um velho morador daqueles sítios, porque o nome tão lúgubre, se o lugar era lindo, descortinado e ensolarado, vendo-se ali tão belos horizontes, tanto para o lado da cidade, como para a região da Capituva e às margens do Sapucaí, todo enfeitado de chorões. Seu nome bem que podia ser “Lindo Horizonte”, “Verdes Planícies”... O caboclo, de pronto, me deu a resposta:

- Num vê, seu Conde, que foi o bicho da Lagoa, o minhocão, que Deus me livre dele e do seu bafo, quem fez isso tudo?

- Como assim? Fez isso tudo o quê? – Perguntei.

E o Zé dos Anzóis iniciou um história comprida, que tentarei resumir agora.
A lenda

A cruz não era apenas de uma caveira, mas de três ali encontradas, há muitos anos, quando se derrubou a mata, a fim de que pudesse abrir lavoura. Desde então a lenda teve início.

Três jovens vieram de muito longe, a pé, e tentaram atravessar o rio Sapucaí. Por isso, tentaram encontrar o lugar mais estreito do rio, em frente a uma lagoa que existia do outro lado. A pressão das águas do ribeirão do Mosquito – na outra banda do Sapucaí – era tanta que um banco de areia e pedregulho descidos da serra, tornava o rio mais estreito naquele lugar. Bem à frente, do outro lado do rio, havia uma lagoa profunda e lamacenta.
Os rapazes, um a um, calcularam a força da correnteza, mediram a distância à outra margem, tiraram suas roupas, amarraram seus pertences em volta do pescoço e se atiraram de ceroula nas águas do Sapucaí.

Que delícia! – disse um deles – Parecia até que algumas ninfas os arrastavam em direção ao outro lado, facilitando a travessia. Quando chegaram à outra margem, os rapazes deitaram-se no alvo banco de pe-dregulhos e ficaram esperando, sem pressa, até que seus corpos e seus pertences secassem ao sol. Enquanto isso, deixaram que seus pés repousassem dentro da lagoa límpida. Dormiram.

Algum tempo depois, um a um, foram sendo arrastados por uma força violenta ao fundo da lagoa.  Lá, junto ao lodo, um bicho peçonhento enrolou-se neles. Os jovens travaram um luta horrível e desigual com a enorme fera. Quando já se encontravam quase mortos e entregues pelo cansaço, os rapazes notaram que estavam novamente deitados naquele banco de areia, onde tiveram que passar o resto da noite, entre dores pelo corpo todo e uma febre altíssima. Nem puderam dormir, já que tinham em mente a nítida lembrança da luta terrível que travaram com o bicho peçonhento, no fundo da lagoa.
Ao amanhecer, intrigados por não terem no corpo um ferimento sequer, mas sentindo-se  moídos em seus ossos, massacrados em seus nervos e com o sangue a ferver em suas veias, os três jovens arredaram dali e seguiram o caminho da Capituva, até as proximidades da Serra. Trôpegos, capengando pelos caminhos, chegaram com muito custo a uma colina que lhes pareceu o único local preparado para morrerem em paz, já que não lhes restava mais forças para continuarem a viagem. Sem condições de alcançar o destino que os esperava, eles entraram na caatinga, avançaram alguns metros adentro até atingirem um parque acolhedor de frondosas caneleiras e esperaram a morte chegar. Naquele ermo, a agonia dos três durou uma noite inteira. Passadas algumas horas, morria o primeiro. Os outros dois, se abraçaram ao cadáver ainda quente do companheiro e deixaram esvair seus derradeiros sinais de vida.

Ninguém jamais teve notícias dos três jovens infortunados. Nem se atreveram a procurar. Também pudera, a região do Balaio até a Lagoa do Bicho era um sertão de meter medo no mais corajoso dos homens e, por aquelas bandas, dificilmente transitava um filho de Deus. Ninguém apareceu para transmitir notícias dos infelizes mortos nas proximidades do Balaio.

Muitos anos depois, os moradores da nova Capituva resolveram plantar ali na banqueta um cruzeiro e construir uma capelinha dedicada à Nossa Senhora. Ao derrubarem as árvores e arrastarem algumas pedras, encontraram juntinhas 3 caveiras em meio às ossadas, todas no mesmo lugar. Junto deles, havia uma tira de couro com a história contada nos mínimos detalhes. Desde então, surgiu a lenda. As 3 caveiras passaram a ser conhecidas como as dos 3 jovens que o monstro da lagoa havia ferido de morte e o local da tragédia, por mais que se procurasse evitar, passou a ser conhecido, até hoje, como a Igreja da Cruz das Caveiras.

Esta matéria é o oferecimento de:

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Cartas de Monteiro Lobato a Santa Rita

A obra "A Barca de Gleyre" apresenta as cartas que Monteiro Lobato escreveu ao amigo Godofredo Rangel.
Quando Delfim Moreira foi governador de Minas Gerais, Santa Rita do Sapucaí recebeu uma atenção toda especial. Nesse período, o interesse do estadista pela cidade era tão grande que ele chegava a nomear promotores e juízes para trabalhar em Santa Rita do Sapucaí que fossem também professores de Português ou Matemática, a fim de que pudessem lecionar nas escolas. Um deles, Godofredo Rangel, era grande amigo de Monteiro Lobato e foi considerado, alguns anos depois, um importante escritor da literatura brasileira.
República Minarete: local onde viveram os estudantes Monteiro Lobato e Godofredo Rangel.
A história

No período em que esteve na cidade, de 1914 a 1918, o juiz trocou centenas de cartas com Lobato mas, infelizmente, suas correspondências não puderam ser publicadas. Rangel deixou registrado em testamento o desejo de que ninguém lesse tais mensagens. Já Lobato, publicou as cartas que enviou em dois grandes volumes conhecidos como "A Barca de Gleyre". Conheça agora a história de tais cartas e a influência que Santa Rita do Sapucaí teve sobre dois grandes nomes da nossa história.

A literatura mundial não registra outra troca de cartas entre escritores que durasse tantos anos como a ocorrida entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel, que se corresponderam com assiduidade de 1903 a 1948. A amizade dos dois começou quando ainda dividiam república e estudavam na Faculdade de Direito de São Paulo, a famosa escola do largo de São Francisco. A correspondência começou quando Lobato regressou a Taubaté, sua cidade natal, e se estendeu ao longo da vida, apenas silenciada com a morte do criador do Jeca Tatu, ocorrida na cidade de São Paulo, em 4 de julho de 1948.

A Barca de Gleyre foi o título dado por Monteiro Lobato à obra que enfeixa as inúmeras cartas que enviou ao seu amigo Godofredo Rangel, autor de romances como Vida Ociosa e Os Bem Casados. Como quase tudo que Lobato escrevia e publicava, o livro vendeu como água e tornou-se best seller. O navegar pelas páginas de A Barca de Gleyre é deveras fascinante. Uma viagem pela história da primeira metade do século XX. Ler a obra, por outro lado, é praticar uma espécie de voyerismo literário. É como espiar uma conversa íntima, conseguindo escutar só um dos lados.
O escritor Monteiro Lobato.
Veja alguns trechos da obra que cita Santa Rita do Sapucaí:

Ao saber que o amigo havia adoecido, Lobato ameniza as dores de Rangel:

“Veio afinal a carta contando sobre sua saúde. Na verdade, a doença que te arriou foi das mais sórdidas. Envenenamento pela nicotina! Puah! Sarrodepitose! Quanto à neurastenia, não compreendo como possa ser vítima de tal coisa um homem dotado da tríplice felicidade: ser casado, ser juiz e ser morador de Santa Rita do Sapucaí.  Morar em Santa Rita... Imagino que seja um tonel de Diógenes, um tonel de paz perpétua num mundo feroz em luta permanente. Essa Santa Rita em que moras e onde dás a A o que é de A e a B o que é de B. Que mais quererá do mundo, Rangel o Incontentável?”

Depois de uma pausa entre as cartas, a ironia de Lobato:

“Viva o ressuscitado! Eu já andava compondo um “Adonais” para o extinto juiz e eletricista (*) de Santa Rita do Sapucaí!”

*Rangel desempenhava a função de contador da empresa de luz da cidade de Santa Rita do Sapucaí, para onde fora removido.

Lobato demonstra que valoriza a amizade entre os dois nesse trecho:

“Eu havia deliberado não escrever a ninguém nesta minha visita ao mar, nem ao administrador lá da fazenda, nem a você, nem ao papa. E conservei-me nesse propósito até hoje, quando o correio me trouxe a tua. Por Netuno! Que redada de cincas de gramática de má morte, ó Cândido de Figueiredo de Santa Rita do Sapucaí! Dou as mãos à palmatória. E dou-me os parabéns de conhecer no mundo um crustáceo tão meticuloso como o meu amigo juiz.”

Quando Rangel termina seu romance “Vida Ociosa”, ainda em Santa Rita do Sapucaí, Monteiro Lobato não consegue esconder a admiração a Rangel e até faz um convite irrecusável ao eterno amigo:
Vida Ociosa, obra prima de Godofredo Rangel, foi escrita em sua passagem por Santa Rita.
“Acabo de ler a última parte de “Vida Ociosa” e corro ao papel para que nada se perca do calor da primeira impressão. Confesso que as partes anteriores me deram suspeita de que em vez de um romance com desenlace a coisa te saísse como uma simples crônica da vida roceira. Enganei-me. Parabéns! Enfim, Rangel, estás consagrado no nosso grupo como o grande romancista que o país esperava  - a nossa roda sabe o que diz, e o que ela diz é a opinião de amanhã. Queres negociar comigo a publicação de Vida Ociosa? O Monteiro Lobato editor do Godofredo Rangel – que maravilha!”

Em outro momento, Lobato parece sentir ciúmes da amizade de Rangel com o célebre poeta Pouso-alegrense Menotti Del Picchia:

“Já sou mais velho do que moço e nada me vale este gamão que jogo há mais de dez anos com o meritíssimo juiz de Santa Rita do Sapucaí. Quando me surge um novo que quer andar comigo pelos mesmos caminhos, sinto-me esquerdo, fujo, enxoto-o. Estas veredas, Rangel, têm dono – são só nossas. Há um Menotti (Del Picchia) que anda querendo invadir a nossa propriedade, esse Menotti de que tanto me falas. Estou com ciúmes. É um braconnier, senhor juiz! Está violando o nosso Paradou.”

Nesse trecho, Lobato se refere a Santa Rita como um lugar ainda intocado pelos vícios da civilização:

“E tu, homem feliz, poço de bom senso, virgem incontaminada que trocas esse empíreo de Santa Rita do Sapucaí pelas escarradeiras cheias de pontas de cigarro que se chamam Centros de Civilização? “
Godofredo Rangel foi juiz em Santa Rita do Sapucaí.
O escritor, encanta-se com a obra de Rangel “Vida Ociosa”:

“A sua apresentação como escritor no jornal Estado de São Paulo operou um efeito siderante. Proclamam agora que és um Machadinho de Assis mineiro. Estás lançado, afinal! Terminei “O saci”. É um livro para crianças, para gente grande ou burra, para sábios folclóricos; ninguém escapa. Depois edito você. Faço tal propaganda de você que todo mundo em São Paulo está de olho em Santa Rita do Sapucaí. Isso aí nem é mais cidadinha mineira: é aquela sarça ardente da Bíblia que Moisés olhava de olho arregalado! Jeovah Shammah! “ 

Ao comentar sua indicação para a direção da Revista do Brasil, Lobato ironiza a pouca influência dos vereadores santarritenses frente ao contexto nacional:

“Lá pela Revista do Brasil querem que eu substitua o Plínio na direção, mas a coisa é segredo. Nada contes aos vereadores de Santa Rita. Pode trazer complicações diplomáticas e ocasionar desvio na rota de Saturno.” 

Neste trecho, mais uma vez, Lobato satiriza a vida monótona que Rangel leva por aqui:

“Oras, viveste longos anos sopitado entre a filarmônica de Santa Rita do Sapucaí e o “fitar o umbigo” da vida introspectiva. Estás fatalmente com mais ostras na quilha do que navio alemão internado em porto neutro.”
Mais uma imagem de Godofredo Rangel.
A seguir, trecho do bate-papo com o escritor Toffo, grande admirador de Godofredo Rangel:

"Rangel morou em Santa Rita por volta de 1918.  A correspondência entre eles nesse período é muito interessante, primeiro porque parece ter sido um período difícil na vida de Rangel. Não sei se você está a par, mas naquela época (diferentemente de hoje) as carreiras de Estado, como juiz e promotor, eram pouco valorizadas e os profissionais ganhavam mal. Por isso, Rangel, além de juiz, reforçava o orçamento doméstico como contador da empresa de força e luz da cidade. Lobato menciona esse fato e, inclusive, numa de suas cartas há uma passagem pitoresca, em que faz uma visita imaginária a Sta. Rita, fingindo bater à porta do amigo e não sendo recebido pela mulher deste, que imaginou ser ele um mascate ou coisa assim. Interessante é que, na época em que li o livro, eu cheguei a fazer uma visita de algumas horas a Santa Rita. Eu vi o prédio do fórum, que é bastante antigo e imaginei que seria o mesmo em que Rangel trabalhara. Cheguei a entrar lá, pensando que talvez ele tenha pisado naquele assoalho... Depois dei uma volta pela cidade, tentando encontrar alguma rua com o nome dele, mas não encontrei. Na época da minha visita, havia muitas casas antigas no centro da cidade, e fiquei pensando que talvez ele tivesse morado em alguma delas. Pela correspondência desse período dá para conhecer toda a gênese de “Vida Ociosa”, a obra-prima de Rangel que tem tudo a ver com Santa Rita. Em alguns aspectos, você pensa estar lendo Lobato mas, na verdade, foi Lobato que se influenciou do estilo dele."

(Reportagem de Carlos Magno Romero Carneiro)

Polo de eletrônica faz 25 anos e aprende a driblar o poder chinês

Criado no sul de Minas Gerais, centro cresce 30% ao ano e se aproxima dos R$ 2 bi em receita
Agnaldo Brito (Enviado Especial a Santa Rita do Sapucaí)

Santa Rita do Sapucaí, cidade da região sul de Minas Gerais -também conhecida como o Vale da Eletrônica-, encontrou uma maneira de encarar o poder dos chineses no mercado de produtos eletroeletrônicos.

Ao chegar aos 25 anos -boda comemorada na sexta-, a pacata cidade de 40 mil habitantes contabiliza o feito. Construiu um parque industrial com 142 empresas que, juntas, vão faturar R$ 1,9 bilhão neste ano, 27% além da receita auferida em 2010. Ano, aliás, em que o Vale cresceu 30%.

Santa Rita detém hoje 70% do mercado brasileiro de equipamentos para radiodifusão. Um em cada quatro habitantes trabalha em alguma parte da indústria local, um polo que emprega a terceira geração criada sob a influência do mundo da eletrônica.

Com metade de um século dedicado a isso, Santa Rita já entendeu o que deve fazer para não só encarar o poder dos asiáticos no mercado dos eletroeletrônicos mas enfrentar a concorrência internacional beneficiada pelo câmbio.

Estratégia

A primeira providência tem sido a de promover investimento maciço em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), tanto no ambiente acadêmico quanto no industrial. Cresce, entre as empresas da cidade, o uso de recursos subvencionados de instituições federais, como a Finep.

Números do Sindvel (Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica) mostram que a indústria do Vale da Eletrônica investe a cada ano entre 8% e 10% do faturamento em P&D.

O setor privado brasileiro, apenas como comparação, investe menos de 1% ao ano.
A segunda iniciativa do Vale está no esforço de desenvolver produtos que não são classificados como "commodity eletrônica".

"Não temos escala, tampouco força para entrar nesse campo. Então, a ordem aqui é investir em coisas específicas. Produzir eletrônicos sob encomenda", diz Roberto de Souza Pinto, presidente do Sindvel. Foi a partir disso que se criaram produtos de todo tipo. De uma simples coleira que evita o latido de um cão ao dispositivo que destrói agulhas contaminadas usadas em hospitais.

Mas nada parece superar um negócio que deve gerar bilhões de dólares para o país nos próximos anos: o sistema brasileiro de transmissão de TV digital. Foi do Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações), instituição local controlada e financiada com recursos privados, que saiu o padrão brasileiro da TV digital. Ancorado no padrão japonês, o modelo foi ajustado ao Brasil e, apesar de recente, já foi adotado por outros 11 países.

Prata da Casa

Nascida em Santa Rita, a Linear, agora uma múlti brasileira, com fábricas na Argentina e na Venezuela, produz metade dos transmissores vendidos no Brasil. Esse é um negócio que vai crescer nos próximos anos, no país e no exterior. No Brasil, a estimativa é que 28 mil transmissores sejam instalados pelas cinco principais redes (Globo, Record, Band, SBT e RedeTV!). Há prazo para isso. No dia 1º de julho de 2016, todos os transmissores analógicos serão desligados. Com expansão de 20% a 30% ao ano, o polo quer agora novas metas, como exportar e tentar viabilizar a indústria de semicondutores.

Matéria publicada no caderno Mercado da edição de 24/07/2011 da Folha de São Paulo

sábado, 23 de julho de 2011

TV Assembleia produz excelente documentário sobre Santa Rita do Sapucaí

Este é um dos documentários mais bem produzidos sobre a história de Santa Rita do Sapucaí e acaba de ser veiculado pela TV Assembleia. Vale a pena ser visto.

Parte1:
 Parte 2:

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A menor pracinha do mundo

A plaquinha em mozaico criada por Celeste Capistrano.
O senhor Hélio Ribeiro dos Santos foi um dos primeiros moradores do Bairro Santana e era conhecido como Eli. Ele procurava sempre conservar o bairro, plantando algumas árvores e pedindo aos vizinhos que o ajudassem a manter limpas as ruas e calçadas. 

Como o senhor Eli era negociante, a pequena pracinha acabou se tornando seu escritório improvisado. Para isso, construiu alguns banquinhos e forrou o chão com brita para receber os fregueses. Todos os dias, muitas pessoas o procuravam para barganhar casas, lotes e animais. Ele comprava e vendia de tudo.
Um vizinho ao lado de Cassinaider, filho do Senhor Ely.
Em 2006, o senhor Eli faleceu mas o local continuou muito bem frequentado. Hoje em dia, cabe ao seu filho Cassinaider e aos vizinhos realizarem a manutenção do pequeno espaço.
O Senhor Ely criou a pracinha que hoje leva o seu nome.
Há alguns anos, Celestinha Capistrano, já famosa por confeccionar lindas peças de artesanato e decoração, presenteou a pracinha com uma bela placa feita em mosaico. Desde então, a esquina tornou-se ainda mais famosa e a prefeitura já estuda a possibilidade de oficializar a “Praça do Eli” como umas das menores e mais queridas do mundo.

Esta matéria é um oferecimento de:

O cultivo do chá em Santa Rita do Sapucaí

No passado, nossa primitiva agricultura consistia no plantio de algodão, milho, mandioca, batata, feijão, cana de açúcar, tabaco, fumo e mamona. Estes produtos eram necessários ao consumo de nossos primeiros habitantes, abasteciam o comércio de outras localidades e da corte imperial através de demoradas remessas feitas em lombo de burro.

O Capitão João Antônio Dias seguiu o exemplo dos seus antepassados e, com grande tino comercial, organizava tropas que transportavam os nossos produtos, inclusive carne e toucinho salgados. Tais produtos eram  levados para São Sebastião do Rio de Janeiro ou então para as cidades mais desenvolvidas da província de São Paulo.

Certa vez, de volta de uma destas viagens a São Paulo, quando passou por  Santa Rita de Extrema, que pertencia ao Município de Jaguary (Camanducaia), o tropeiro conseguiu do Sr. Antônio Felisberto Nogueira, na Fazenda do Selado, uma quantidade de mudas de Chá da Índia (100.000 pés), e resolveu plantar em suas terra.

Depois de certo tempo, estava formado o seu “Chazal”. A população local encantava-se em admirar a plantação localizada onde hoje estão situados o bairro da Vista Alegre, o Cemitério e a câmara municipal.
Seus arbustos, pertencentes à família das theáceas, eram periodicamente colhidos, ou então, depois de uma ligeira fermentação, transformados em “Chá Verde” ou “Chá Preto”, tão apreciados naquele tempo. O habito de tomá-lo fazia parte das reuniões sociais e passou a fazer parte da primeira riqueza produ-zida em Santa Rita do Sapucaí.

Muitos de nossos conterrâneos mais antigos ainda se lembram de ter visto, nos lugares citados acima, vestígios da cultura do chá ou de que tivessem utilizado a sua semente, ali encontrada, para atirar com estilingue.

A notícia do cultivo do chá em terras santarritenses foi confirmada pelo jornal Pousoalegrense “Fala do Trono” de 3 de fevereiro de 1846, a qual nossa cidade pertencia nessa época. O período histórico apresenta Santa Rita como um município que contava com vinte cultivadores e seis fabricantes do Chá da Índia. Não sabemos ao certo qual a razão do abandono de sua cultura em nossa terra, hoje sem qualquer vislumbre. 
Por Ideal Vieira

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O primeiro monumento a Ruy Barbosa erigido no Brasil

 Dr. Alfredo Marques

O curso de Direito que o Dr. Alfredo Marques fez em São Paulo foi cheio de peripécias e durou 10 anos. Ainda estudante, ele conheceu Ruy Barbosa e ficou encantado  com a inteligência deste grande político e escritor brasileiro. A admiração do Dr. Alfredo era tamanha que, ao retornar à Santa Rita, já formado, ele tratou logo de batalhar para erigir um busto em sua homenagem.

A inauguração

Por perceber que Ruy Barbosa era um grande exemplo ao povo santarritense, quando iniciou seus trabalhos por aqui, Doutor Alfredo custeou quase sozinho o busto que, durante muitas décadas, ornamentou a praça do antigo “Clube Santarritense”. Sua inauguração aconteceu no dia 21 de maio de 1924 e não se tem notícia de outro busto em sua homenagem inaugurado antes desta data em qualquer parte do mundo.
A seguir, o trecho de uma notícia sobre a inauguração do monumento:

Santa Rita do Sapucaí, que vem há anos cultuando o saber, é a primeira cidade a render uma homenagem póstuma a Rui Barbosa, ao erigir um busto em praça pública no dia 21 de maio de 1924. Na ocasião, discursou o Juiz de Direito da Comarca Dr. Amphilóquio do Amaral e estiveram presentes na solenidade o Sr. Bispo Diocesano Otávio Chagas de Miranda. A iniciativa deve-se a um grupo de advogados e comerciantes santarritenses.

O autor da obra

Tal como o busto do Cel. Joaquim Inácio, que até hoje está presente na Praça Santa Rita, o busto de Ruy Barbosa também é obra do arquiteto Agostinho Audízio que aqui residiu por longo tempo. Antes disso, o mesmo artista havia construído também o antigo frontispício da Igreja Matriz.
Tentativas de remoção

Na década de 30, a prefeitura tentou retirar a obra da praça para que pudesse reformar o local. Essa notícia causou um grande ressentimento do Dr. Alfredo Marques e mereceu destaque no Jornal “O Correio do Sul” através da seguinte nota:

Ao que nos consta, a prefeitura local, no louvável intuito de dotar a cidade de logradouros modernos e decentes, vai promover o remodelamento completo da Praça Cel. Joaquim Ribeiro, retirando dali o acanhado jardim e adaptando-a para o estacionamento de autos. Essa medida, que não terá senão aplausos ao nosso dirigente, dará um aspecto inteiramente novo àquela praça, onde estão situados o majestoso “Club Santarritense” e a sede dos Democráticos, prestes a ser reformada. Com o remodelamento daquele logradouro, é óbvio que não poderá permanecer ali a herma que a admiração dos santarritenses erigiu a Ruy Barbosa, e que representa o culto de nossos habitantes pela sabedoria e pela cultura.

Assim, seria uma idéia digna de estudo a que propomos, que consiste na remoção do busto de Ruy para o pátio de uma de nossas casas de ensino onde, além de representar o gênio, a sabedoria e o amor ao estudo, será um incentivo à mocidade e um convite tácito à cultura. Queremos crer que essa idéia será bem aceita pelo honrado senhor Frederico de Paula Cunha, prefeito da cidade pois, para favorecer a estética urbana, será uma ótima aquisição para o educandário que se escolher para a localização do singelo mas elegante monumento.
(20 de março de 1938)
 Vandalismo

Segundo nos contaram alguns santarritenses, o monumento passou por uma série de atos promovidos por vândalos. Em um deles, um homem chegou de cavalo, laçou o busto pelo pescoço e o derrubou no chão. Esse crime causou uma série de avarias no busto, que já vinha sofrendo desgastes pela ação do tempo e falta de conservação.

A retirada

Depois de muita polêmica, a obra permaneceu no local de origem e resistiu às alterações do local até o início da década de 90, quando as casas da praça foram demolidas e o espaço foi remodelado.

Onde anda o monumento?

Hoje em dia, o busto de Ruy Barbosa acaba de passar por um processo de restauração e está sob a guarda da Maçonaria, até que sua base seja refeita e o momumento encontre um local definitivo. Desde que foi retirado da praça, a base do monumento passou por diversos locais de armazenamento e encontra-se hoje abandonada nas dependências do Cempaac, em péssimas condições.

Esta matéria é um oferecimento de:

TAKE FIVE DESENVOLVE NOVO PROJETO GRÁFICO PARA JORNAL DO INATEL

Dia da Asia 2011 - Encontro dos Antigos Alunos da ETE FMC



terça-feira, 19 de julho de 2011

O jornalista Luiz Nassif e seus tempos de estudante em Santa Rita do Sapucaí

A primeira vez que ouvi Chico Buarque de Hollanda eu devia ter uns 14 ou 15 anos. Foi em um programa da extinta TV Tupi, não sei se Almoço com as Estrelas ou um programa do Fernando Faro. O cantor tocava seu violão e nem olhava para a câmera. Acho que cantava “Pedro Pedreiro”.

No início de 1965, com 15 anos incompletos, passei seis meses estudando Eletrônica, em Santa Rita do Sapucaí. Fui morar na república WC, a mais barra pesada da cidade, liderada pelo itajubano José Saia, que exibia no braço esquerdo marcas que, assegurava, eram de navalhadas que recebera de Mineirinho, o mais célebre bandido da época.

Toda manhã acordava com meu companheiro de beliche, Salário Mínimo, de São José dos Campos, tocando no violão a valsa “Subindo aos Céus”, de Aristides Borges.

Música antiga, só na WC. Nas noitadas de Santa Rita, reinava a bossa nova, com o violão do Salário Mínimo, de São José, do Tota, de Poços de Caldas, a voz do Marcão, de Ouro Preto. Em cada serenata se punham literalmente de joelhos quando falavam de Vanda Sá, a Vanda Vagamente, musa absoluta, cujo retrato estava em um altarzinho na república WC.

Quando voltei a Poços, no segundo semestre de 1965, foi que teve início a era Chico Buarque de Holanda. Chico estourou, ao lado de Geraldo Vandré, no famoso Primeiro Festival da Record. Politizada, nossa turma torcia pela “Disparada”, de Vandré. Mas nas serestas, nossa companheira era “A Banda”, de Chico. A televisão, ainda novidade, transformou a disputa no fato nacional mais comentado do período. Pouco depois, “Olé Olá” foi lançada e transformou-se em hino nas nossas serenatas.

Luis Nassif

Introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria. Prêmio iBest de Melhor Blog de Política, em eleição popular e da Academia iBest.

Pegue o seu guarda-chuva que o circo chegou!

Lá vem chuva!

Santarritense que se preze sempre foi apaixonado por espetáculos circenses. Tão apaixonado, que basta um companhia armar sua grande lona colorida em um terreno baldio da cidade para alterar até mesmo a previsão meteorológica regional. Toda vez que um circo aparece por aqui, chegam também nuvens negras que logo se transformam em toró dos brabos. Para confirmar essa mística, reza a lenda que quando a Avenida Delfim Moreira ainda era de chão batido, choveu tanto durante a estada de um circo por aqui que um elefante atolou nas proximidades do Grande Armazém de Secos e Molhados e precisou ser retirado com a ajuda de um carro de boi. Hoje em dia, os circos não costumam utilizar animais selvagens. Vez ou outra, surgem alguns carros de som pela cidade anunciando a presença espetacular de animais domésticos adestrados como o “Cachorrinho do Curíntias” ou o “Cachorrinho do Parmeira”. Ainda assim, todo mundo se diverte com as atrações ou até mesmo com os improvisos dos artistas.
A crise dos circos

 Em um dos últimos espetáculos de um circo na cidade, uma frase durante a apresentação do Táxi Maluco (um Fiat 147) chamou a atenção: “Acenda as luzes, Maestro”! Nesse momento concluí que a crise estava forte. Se em um circo, onde o som era mecânico, o “maestro” estava encarregado de cuidar das luzes, imaginei que a coisa andava realmente preta para aqueles corajosos artistas itinerantes. A verdade é que depois que a televisão tornou-se peça fundamental nos lares dos brasileiros, os circos começaram a sofrer sérias dificuldades financeiras e raramente aparecem por aqui. Se no passado a população da cidade disputava lugares nos espetáculos, atualmente as pessoas só tem ido mesmo em duas situações: quando é criança ou quando tem filho pequeno.
Marreco e a mulher gorila

São lendários os desafios travados entre lutadoras profissionais com os valentões da cidade, em circos que nos visitavam. Até hoje as pessoas ainda contam histórias sobre a vitória do Zé Mecânico sobre “Olga Zumbano” ou lembram a coça que Dito Cutuba levou da lutadora conhecida internacionamente como “Broto Cubano”. Certa vez, no final da década de 80 eu presenciei um espetáculo muito interessante em um desses circos que vieram para cá. A atração principal era a terrível “Mulher King Kong” que havia desafiado qualquer homem da cidade para um duelo de luta-livre. Quando o momento mais esperado da noite chegou, a temida lutadora, com poucos golpes e pescoções já tinha liquidado o rival santarritense e começou a tirar sarro da platéia realizando enervantes cenas de “bunda-lelê” em cada um dos 4 cantos do recinto. A cada rebolada, a “King Kong” mexia também com os brios da torcida e alcançava com su-cesso o seu intento: atrair a atenção de algum valentão para desafiá-la no dia seguinte. O clímax foi atingido quando a moça pegou o microfone e perguntou se não tinha homem na cidade. Naquele momento eis que surgiu do meio da platéia, pulando o alambrado de forma desengonçada, o saudoso “Marreco”, que gritava enfurecidamente: “Tem eu”! A torcida foi à loucura! Chegava um salvador do orgulho local, para por fim à tirania daquela terrível carrasca. Tudo ia bem, até que Marreco chegou às cordas do ringue improvisado no centro do picadeiro. O caldo entornou... nosso herói enroscou a perna nas cordas e tomou um tombo homérico, se estatelando dentro da “praça de guerra”. Isso foi suficiente para que a lutadora pegassse a toalha que estava pendurada em seu ombro, enrolasse no pescoço do pobre Marreco e iniciasse uma sequência de golpes que nunca ninguém tinha visto até então nas redondezas. Durante intermináveis 5 minutos, a multidão via o pobre Marreco ser arremessado de um lado para outro do ringue, voando a mais de um metro de altura do solo. O infeliz representante da masculinidade local, que já tinha entrado no ringue meio de fogo, saiu de lá ainda mais alterado e com uma resposta que lhe causaria um grande arrependimento no dia seguinte. Ao ser pressionado pela torcida ele acabou dizendo SIM quando a lutadora propôs uma revanche! Quem esteve presente na “vingança” do santarritense disse que a “mulher gorila” ensinou a platéia a assar um “Marreco” com a-penas 5 golpes. O mais interessante dessa história é que existe registro em vídeo. O cinegrafista Luiz Carlos ainda guarda esse espetáculo em DVD para o deleite dos admiradores do saudoso santarritense, que faleceu alguns anos depois. Um vídeo para ficar para a história.
video
O desafio no trapézio

Por falar em Luiz Carlos, ele também foi atração principal em um espetáculo santarritense. Quando ouviu dizer que ganharia um grande prêmio o voluntário que conseguisse encarar com sucesso o show de trapézio, ele topou a parada e quando a notícia espalhou acabou lotando  o famoso circo Nhana. Quando chegou o momento do desafio, ele subiu as escadas, segurou o trapézio e se preparou para saltar, quando um dos artistas que estava ao seu lado o empurrou. Luiz Carlos despencou lá de cima, segurando o trapézio com apenas uma das mãos, deu umas duas balançadas e só não caiu para fora da cama elástica porque uma de suas pernas ficou presa nas extremidades da proteção. Esse vídeo ele jura que não existe. Vai saber... se fosse comigo eu também não mostraria.
(Carlos Magno Romero Carneiro)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Gabriel Moraes: simpatia em quatro rodas

A personificação da simpatia reside em Pouso Alegre e atende pelo nome de Gabriel Pereira de Moraes. Sua bela casa fica no bairro Portal do Ipiranga e é cercada de palmeiras cubanas que o próprio morador plantou. “Tenho a mão boa, primo!”, pavoneia-se cada vez que aponta uma árvore enraizada em sua propriedade. As mãos de Gabriel são mesmo poderosas. Com elas, o mecânico ganhou a vida restaurando centenas de veículos antigos. Quem conhece esse brazopolense de 79 anos logo se encanta por seus modos simples e afáveis. Não foi diferente quando ele relatou suas peripécias ao Empório Pouso Alegre.
Filho e neto de mecânicos, Gabriel cresceu ouvindo a sinfonia dos motores automotivos, regida por mãos untadas de graxa. Aos dois anos, engatinhava entre carros na oficina de seu pai. Aos 10, lavava peças e ferramentas. Cinco ou seis anos depois, já fazia consertos com extrema habilidade. Adquiriu seu primeiro veículo, um Ford, aos 18 anos e, desde então, se especializou em montar modelos do fabricante norte-americano.
Na década de 1960, Gabriel concretizou o sonho de restaurar o primeiro automóvel produzido pela Ford, em 1896. Com dianteira de madeira e volante em forma de manche, a raridade alçou Gabriel a garoto-propaganda de uma rede de postos de combustíveis. Nessa condição, ele viajou pelas principais cidades do Sudeste, nas quais distribuía camisetas, bonés e chaveiros promocionais. As trocas de óleo aconteciam em todos os postos da rede, o que atraía grande número de curiosos. Durante sua passagem por São Paulo, em 1966, Gabriel foi convidado por um repórter da extinta TV Paulista para participar de um programa ao vivo. O apresentador da atração era ninguém menos que Silvio Santos.

Conhecer o “homem do baú” foi uma experiência inenarrável. Aquele dia não sai da memória prodigiosa de Gabriel, que venceu o concurso de carros antigos do programa televisivo (valendo um aparelho de rádio e um prêmio em dinheiro). A emissora custeou a hospedagem do entrevistado e, de quebra, presenteou-o com uma fotografia do encontro inesquecível com Silvio Santos.

Gabriel não imaginou que teria outra oportunidade de aparecer num veículo de comunicação de abrangência nacional. A sorte lhe sorriu novamente nos anos 1970, durante uma edição da Feira da Providência, no Rio de Janeiro. Incentivado pela amiga Lourdes, nora do ex-presidente da República Wenceslau Braz, levou um “Ford bigode” fabricado em 1920 para expor na barraca que representava Minas Gerais. O carro e a gentileza de Gabriel agradaram a então primeira-dama do país, Scylla Médici, que adquiriu o Ford por 70 mil cruzeiros (quantia suficiente para comprar 11 Fuscas na época). O fato chamou a atenção do jornal “O Globo” que estampou em sua primeira página: “Gabriel é o máximo”.

Para a publicação da matéria no jornal de Roberto Marinho, Gabriel foi entrevistado na residência do famoso colunista social Ibrahim Sued, no bairro Copacabana. Estava carimbado o passaporte que conduziria o afável mecânico para o mundo das celebridades. Sem esforço, Gabriel conheceria inúmeros artistas, políticos e empresários. Orlando Orfei, proprietário de circos e parques de diversão, o contratou para restaurar 11 automóveis antigos. Entre eles estava um Lancia 1921 comprado na Itália e que havia pertencido ao gângster Al Capone.
A ex-modelo russa Elke Maravilha também faz parte das lendas que envolvem Gabriel. A inefável jurada de programas de calouros encomendou ao mecânico uma Brasília com carroceria de Bugatti 1928. A entrega aconteceu em 1989, na cidade de Araxá. Gabriel almoçou com a artista e guarda até hoje seu autógrafo, acompanhado por um beijo de batom vermelho. Durante aquele almoço, um fã bem vestido convidou Elke para dançar, ao que o namorado dela respondeu, batendo a mão nas costas de Gabriel: “Negativo! Só com o meu amigo aqui”.

Outro fato incrível envolveu o empresário Roberto Lee, que comprou de Gabriel um carro conversível, numa sexta-feira de 1975, e o recebeu para almoçar no domingo. No dia seguinte, o mecânico ficou surpreso com uma notícia trágica: o industriário havia sido assassinado em São Paulo.
Gabriel vendeu automóveis raros para os maiores colecionadores do país, como Og Pozzoli e Eugênio de Camargo Leite, mas alguns carros que sua garagem abriga não estão à venda. Os melhores exemplos são um Ford 1929 (conhecido como “Cristaleira” ou “Guarda-louças” por ser o primeiro modelo da montadora a receber vidros) e um Dodge Dart 1972 que pertenceu a um senador dos EUA.

O discípulo mais simpático de Henry Ford costuma comprar quatro ou cinco carros da marca norte-americana para montar um veículo com características e peças originais, sempre com a assinatura metálica do restaurador. O material que sobra é acondicionado na oficina do experiente mecânico. Ele trabalha praticamente sozinho nas reformas, que duram de seis a oito meses – só não cuida do estofamento e da cromagem. Suas ferramentas ficam em um cofre comprado de uma agência bancária de Brazópolis.
Além de devolver a vida para automóveis que não são mais fabricados, Gabriel transporta noivas aos finais de semana. No ramo desde 1951, já perdeu a conta de quantas donzelas conduziu no banco traseiro. Para tornar os enlaces ainda mais emocionantes, ele manda confeccionar placas semelhantes às de carro, contendo os nomes dos nubentes e a data do casório. Esse é o presente que entrega aos “pombinhos”.

Gabriel está prestes a entrar no rol dos octogenários, mas não para de trabalhar e de fazer planos. Pretende iniciar em breve a restauração de um Mercedes. Cobrir o pátio da oficina é outra ideia para os próximos meses. Nenhum obstáculo parece instransponível para o mecânico. Homem realizado, Gabriel alcançou o sucesso profissional com competência e, principalmente, cortesia. Conversar sobre carros antigos foi apenas um pretexto para conhecer uma figura humana extraordinária que, onde quer que vá, carrega sobre quatro rodas seu carisma irresistível.
 (Jonas Costa)

Esta matéria é um oferecimento de