quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A rotina de um morador de rua

Tudo mundo vê, mas ninguém sabe ao certo como é a vida de um simples andarilho. Ao caminhar pelas ruas de Santa Rita atrás de um desses homens sem paradeiro, encontramos um senhor de 56 anos, vindo da cidade de Assai, no Paraná. Uma pessoa de agradável comunicação, que tenta ganhar a vida catando papelão e outros “restos” de materiais, comprados por alguns comerciantes.
Caindo na vida

O Senhor Hélio Rodrigues saiu de casa por desentendimentos entre ele e a família. Ao cair na vida, viveu momentos de grande dificuldade mas não perdeu a coragem. Quando lhe perguntamos se ele é feliz, respondeu com toda a certeza do mundo: “Até hoje, todos os dias”.  O homem simples, que caminha invísível por nossas ruas empurrando uma carroça, exibiu, com muito orgulho, os documentos, que comprovam a sua existência. Mesmo fingindo não ver, os governantes sabem que ele existe.

Figura do povo

Seu Hélio foi cumprimentado várias vezes durante a entrevista por pessoas que passavam ao nosso lado. Ele disse que é bastante conhecido na cidade e que tem um carinho enorme pelo povo santarritense que o acolheu com tanto calor e verdade. Ele até deixou um abraço especial para o Zé Garcia, guarda da empresa Sensotron, a todo o pessoal da Pizzaria Na Lenha que o ajuda dando o que comer todos os dias, e ao Rafael do Ferro Velho, que lhe empresta a carroça para que consiga recolher seu material reciclável.

Lembranças que ficaram

Ao falar de sua família, Hélio se emocionou muito. Disse que sente muita dor e saudade, mas que prefere ficar por aqui mesmo e evitar determinados conflitos. Segundo conta, sua vida não é a melhor do mundo, mas está satisfeito do jeito que está.
Insegurança

Durante a nossa conversa, Hélio se queixou da falta de segurança da cidade. Mesmo vivendo na pobreza, ele afirmou que já foi roubado diversas vezes. O andarilho nos contou também que alguns ladrões chegaram a invadir seu barraco, localizado no meio do mato, nas redondezas da Nova Cidade, e levaram tudo o que ele tinha: botijão de gás, cesta básica e alguns utensílios que havia ganhado ou comprado. Com muito esforço, vivendo há três anos em nossa cidade, Hélio disse que não esperava que fosse vítima de um roubo, mas garante que não guarda mágoas. Ele sabe que existem pessoas de todos os tipos e que entre tanta maldade ainda existem pessoas muitos boas.

O sonho de um homem bom

Para finalizar, pedimos ao homem simples e honesto que nos falasse sobre seus sonhos. Com um sorriso no rosto, Hélio desabafou: “Queria ser caseiro de alguma fazenda, para que pudesse cuidar de tudo, assim como fazia na época mais feliz da minha vida, quando era boiadeiro”. Esse é o sonho de uma pessoa que caminha pela terra sem grandes necessidades. Este é o sonho de um de nossos irmãos que compreende que, para ser feliz, é preciso caminhar leve.

(Por Gabriela Santucci)
Esta reportagem é um oferecimento de:

Antigos alunos da ETE FMC se reúnem no Segundo Encontro da ASIA

O Encontro aconteceu no dia 23 de setembro, no Campus da ETE FMC, e contou com cerca de 300 participantes.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Reminescências (Leopoldo de Luna)

Maximiano Octávio de Lemos
A minha grande alegria foi quando recebi o primeiro número do jornal de “Santa Rita”, publicado pelo Dr. Maximiano de Lemos. Li da primeira letra do cabeçalho ao último anuncio que era de uma sapataria. O diretor era um homem inteligente, bom orador, falava alto, em tom de discurso, inimitável na propaganda do seu colégio. Certa vez me surpreendeu rabiscando umas tiras de papel. Disse-me que era um pequeno artigo para o jornal de minha terra. Ele tomou as laudas, leu a crônica e guardou dizendo que ia publicá-la no jornal local “A Procellária”.  Feita a publicação, enfiou no bolso um número da folha. A cada visitante, mostrava o artigo, declarando que era de um aluno que chegara para o colégio, analfabeto, seis meses antes.

O estabelecimento preparou uma turma para prestar exames em São Paulo. Eu devia requerer quatro matérias. Fui para a casa à espera do dia do embarque. Em Santa Rita encontrei o jovem político Delfim Moreira, recentemente empossado no cargo de Secretário do Interior do Governo Dr. Francisco Antônio de Salles. Sorridente, amável e bondoso, foi à nossa casa pedir a meu pai permissão para levar-me à Capital Mineira, onde prestaria exames. A minha primeira prova foi de português. A turma convocada era geralmente pequena: seis ou oito examinandos.

Fazia parte da banca o professor Aurélio Pires, que mereceu de um grande poeta mineiro um poema: “Mestre Aurélio entre as rosas”.  A comissão examinadora escolheu para a prova escrita a descrição de uma festa qualquer que fosse. Descrevi uma festa na roça, com fogueira, desafio de violeiros. Enxertei versos caipiras e quadras do folclore brasileiro.

O bedel que servia aquela sala era um moço de Pouso Alegre que se fizera meu amigo. Quando abriu a porta para sair com a bandeja de café, avisou-me que o mestre Aurélio estava lendo a minha prova para os colegas, e davam boas risadas. Fiquei um pouco nervoso. Estariam gostando ou zombando da composição? Teria errado pondo tanta jovialidade numa coisa tão séria que era um exame? A maneira com que fui recebido para a prova oral me tranqüilizou. O provinciano bisonho que eu era levou para a casa uma distinção.

À hora do jantar, o Dr. Delfim Moreira soube do resultado. Homem boníssimo, ficou satisfeito. E pronunciou umas palavras que por muito tempo me ficaram soando nos ouvidos:__ “estuda rapaz, que a nossa terra precisa de gente”. Ele era natural do município de Cristina, mas a terra a que se referia com tanto carinho era Santa Rita do Sapucaí.

(Leopoldo de Luna - Correio do Sul - 16/07/67)
 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Um bate papo com a amiga Alicinha Baracat

A senhora morou na Avenida Delfim Moreira na infância?

Eu estava lendo a última edição e gostei muito daquela foto que mostrava o início da rua da pedra. Eu me lembro muito bem daqueles carros de boi, voltando para a roça. Geralmente eles vinham do Bom retiro, do vintém, daqueles lados. Isso me deu muita saudade dos tempos de criança. Nessa época eu morava na primeira quadra da avenida, perto da rua da ponte. Era a última casa do primeiro quarteirão. Ao lado da minha ficava a chácara da Dona Antonieta. Essas eram uma das únicas casas da avenida. Somente no último quarteirão é que tinha algumas outras construções. No final da avenida ficavam a Escola Normal, o prédio do seminário, a casa da Dona Adélia e a residência do senhor Zequinha Adão.

Quais era as suas brincadeiras na infância?

No carnaval, haviam dois blocos: o Democráticos e o Ride Palhaço. A gente via aqueles blocos luxuosos desfilarem e, quando chegávamos em casa, queríamos fazer os nossos bloquinhos na calçada. Nós brincávamos muito disso. Pegávamos uns caixotes de madeiras, colocávamos rodinhas, enfeitávamos de papel crepon e dizíamos que eram os carros alegóricos.

Outra coisa que nós gostávamos de teatrinho. Na casa do senhor Teixeira, onde morou também o pessoal do Pedro Andare, tinha um porão grande onde a gente fazia teatrinho. A entrada era um palito de fósforo, mas não podia ser riscado. (risos) Ali nós dancávamos e nos apresentávamos em cima de caixotes.

Depois de algum tempo, quando nos mudamos para a rua da ponte. eu me afastei dos meus amigos de infância, como o Marcos Flávio, e só voltamos a nos unir muitos anos depois para formar o Bloco Bandalheira e um grupo de teatro chamado GRUTA.

Como era o Bloco Bandalheira?

Quando o Bloco dos Democráticos ou o Ride deixavam de desfilar, surgiam os blocos para tentar animar. Mesmo os bailes do clube, quando não tinham os blocos não era a mesma coisa. Daí apareceram bloco como o “Milhonários da Alegria”, a “Escola de Samba do Tonico”, o “Hora H” e o “Bafo da Onça”. Lembro que a gente sempre ia atrás da bateria do Tonico para poder aproveitar o som, porque no nosso bloco não tinha. Nós não tínhamos dinheiro para fazer nada muito elaborado.

A senhora ajudou a fundar o Feirão Folclórico?

Criamos em 1981. Era um grupo muito bom. Naquela época, já existia um festival de música sertaneja promovido pela Emater e nós resolvemos criar um evento maior. Nós tivemos uma ajuda muito grande da Dona Terezinha e das filhas dela. Também participaram da criação do projeto o Marcos Flávio, o Victor Grilo. o Nando Almeida, a Eliana Miranda e a Célia Rocha. Foi um sucesso. Naquele mesmo ano, também ajudamos a criar o primeiro Desfile de Cavaleiros. Aquilo movimentou muito a cidade.

Fico muito feliz de ter participado. Foi um momento muito inspirado de nosso grupo ter criado o Feirão Folclórico. O evento até despareceu um tempo. Ficou alguns anos sem aparecer, mas agoro eu parabenizo o prefeito Paulinho e o Norival da Secretaria de educação que é um menino que dá valor a essas, por terem entusiasmo de fazerem acontecer.

Como foi a sua juventude na cidade?

Eu gostava muito de ler. Tudo o que caía na minha mão eu lia. Nós tínhamos uma grande vontade de conhecer alguma coisa diferente mas nós não íamos muito. Eu falava para o meu pai: “Com tatna cidade no mundo como Paris, Rio de Janeiro ou São Paulo e o senhor muda do Líbano e vem logo para Santa Rita? Aqui não tem nada pra ver!” Daí ele respondia: “E o que é que eu ia fazer em Paris com esse bando de crianças?” (Risos) De fato, os libaneses faziam isso mesmo. Eles viam para as pequenas cidades e crescia junto com elas. Tanto que a rua da ponte era de maioria Libanesa.

O que o seu pai fazia?

O meu pai (Dib Baracat) tinha uma loja de eletrodomésticos. Chamava “Casa do Rádio”. Ele também vendia tecidos para confecção de ternos, corte de seda natural e outras coisas. Ele tinha muito bom gosto. Ele ia para São Paulo e comprava cortes de seda lisa e estampada. Sua preocupação era nunca repetir dois cortes iguais. Ele sabia que, como a cidade era muito pequena, se fizesse isso, teria problemas. Infelizmente ele morreu com 59 anos.

Como era viver na rua da Ponte?

Eu gostava muito. Nunca me esqueço quando o trem chegava. Nós conseguíamos ouvir a maria fumaça lá da rua de casa e víamos diversas charretes passarem com os viajantes que chegavam à cidade. Todo dia o senhor Chico, aquele senhor que sempre puxou uma carrocinha com dificuldades na rua, passava em frente de casa carregando o rolo de filme que ia passar no cinema.

Como era a sua época de escola?

Na minha época de escola nossa turma era a mais espoletada. Como eu não tinha irmãs, fazia as mesmas coisas que os moleques faziam. No meu tempo de Colégio Sinhá Moreira, que ainda era chamado Escola Normal, tinha uma dessas caixas de abellhinhas minúsculas. Uma vez eu pedi para ir ao banheiro - a gente pedia para ir à “casinha” - e matei a vontade de que eu sempre tive de cutucar aquelas abelhinhas com um pedaço de pau. Quando eu mexi lá, aquelas abelhas ferveram e foi uma coisa louca. A escola inteira ficou cheia daquele bichinho. Aquilo me rendeu um castigo feio! (Risos)
A senhora lembra de outra história da Escola Normal?

Lembro também quando eu estava no primeiro ou segundo ano primário, estudava no segundo andar e chegaram falando que o Chiquinho da Borda tinha aparecido no prédio da escola. Chiquinho era o famoso “coisa ruim da Borda”. Um diabinho que aparecia naquela cidade e que causou medo na região inteira. Quando surgiu aquele boato, foi aquele alvoroço e todo mundo ficou morrendo de medo. Ninguém queria descer as escadas. Teve menina que queria pular lá de cima. Até pra eu dormir foi difícil. Isso foi uma coisa que apavorou a gente. (Risos)

Quais são as coisas que mais marcaram a senhora?

Uma coisa que ficou muito marcada na minha memória foi a chegada dos Expedicionários. Eu ainda era muito criança, mas foi uma alegria muito grande quando eles retornaram à cidade. Lembro que eu vi o expedicionário João Adami, que era meu vizinho, e aquilo me trouxe uma alegria muito grande. Do portão da minha casa, eu não sabia se ria ou chorava. Outra coisa que não sai da minha cabeça eram as brincadeiras na praça. Eu acho que não tem uma única pessoa que tenha vivido em Santa Rita e não tenha escorregado no coreto. Aquilo não poder morrer.

Conte-nos sobre o seu irmão Marcos Baracat


Quando nasceu o meu irmão Marcos (Baracat), em 1945, a minha avó estava lá em casa. Ela era uma pessoa boníssima, mas nunca deixava a gente chegar ao portão. Quando era vinha para a nossa casa a gente sempre ficava sem poder sair. Naquela época eu era tão ingênua que nem percebia que a minha mãe estava esperando neném. Ela ficava grávida e a gente nem sabia.

No dia em que ele ia nascer, a minha avó acordou a gente cedinho e pediu para a gente ir brincar na rua. A gente achou estranho ela ter mandado a gente brincar. Foi aí que o meu irmão Jorge sugeriu que nós fôssemos até a esquina da estamparia brincar. Nós fomos e levamos juntos o Emil e o Mansur. Para nós era uma aventura. Quando nós chegamos na metade do caminho, notamos que estavam virando lá na esquina da estamparia uma boiada. Nós tivemos que pegar as crianças mais novas, colocar no colo e chegar correndo em casa. Foi um sufoco. Quando entramos no portão, já escutamos um choro. Era o Marcos (Baracat) que tinha acabado de nascer.
Como era o Marcos na intimidade?

Era uma pessoa incrível. Não digo isso por ser meu irmão, mas o Marcos era uma pessoa especial em termos de levar alegria a todo lugar onde ia. Uma vez, ele com os amigos resolveram matar um carneiro nos fundos de casa. Junto com a turma toda, havia um rapaz chamado Rodolfo ou Lindolfo, ajudando. Quando terminaram de preparar a carne, eles deram uma saída e, quando voltaram, viram que os miúdos do bicho tinham sumido. Depois de muito tempo foi que eles perguntaram para o tal Lindolfo, que falou: “Uai, Baracat! Eu pensei que era pra levar pra minha casa!” Daí o Marcos respondeu: “Olha meu filho, você tá pensando muito! Eu vou botar um camisolão branco em você e deixá-lo em baixo do abacateiro pra ver se você escreve alguma coisa bonita pra nós! (risos)

O Marcos tinha as trapalhadas dele, fazia muita graça, mas foi uma pessoa de muita fé. Tinha dia que ele dormia com o terço na mão. Infelizmente, os meninos lá de casa foram embora muito cedo. Nós tínhamos as nossas brigas, que chamávamos de “Baracat Brigas LTDA”, mas foi um tempo muito gostoso. Era tudo muito bom.

Esta entrevista é um oferecimento de:

EMPÓRIO DE NOTÍCIAS CONTRATA VENDEDORA

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Três passagens da década de 80 que abalaram (ou não) a cidade

A passagem de Fernando da Gata

Uma das primeiras recordações que tenho de Santa Rita do Sapucaí vem de 1983, quando o bandidão Fernando da Gata, deixou um rastro de medo em Pouso Alegre e bandeou para nossa cidade, em busca de um cafofo. Os pais, apavorados, enchiam a cabeça da criançada de histórias sobre o terrível vilão vindo de São Paulo e trancavam suas portas assim que o sol baixava.

Na curta estadia de Fernando Soares Pereira por aqui, ouvi histórias de que ele vivia escondido nas redondezas da Rua do Queima e que carregava os pertences em uma meia calça vermelha presa entre dois dentes e um pivô, para atravessar o rio a nado. De meus colegas do jardim da infância, soube que o rapaz era dono de um sapato com garras afiadas para caminhar entre as matas e que tinha os olhos vermelhos feito brasa. Tudo invenção... Só mais tarde descobri que Fernando da Gata foi um sujeito muito ágil e violento, que ligava aos donos das residências para avisar que estava roubando, zombava da Polícia, fugia de tudo que era prisão, matava, judiava das mulheres que cruzavam seu caminho, era cínico, bobo, feio, e não tinha dó de ninguém.

Apesar de assustar muitos santarritenses, soube que o bandido nem chegou a entrar na cidade e que foi morto nas redondezas da fazenda do senhor Huet Moreira, pela Polícia Militar. O fato é que bastou Fer-nando da Gata esticar as canelas para virar lenda. Ganhou samba-enredo, poesia, seriado na Globo e literatura de cordel. Em Russas, sua terra natal, seu corpo chegou em um ataúde de madeira e foi recebido com festa pela população que nunca tinha visto um conterrâneo aparecer nos jornais.

A passagem do lendárioCometa Halley

Três anos após a passagem relâmpago de Fernando da Gata por nossas bandas, foi a vez de um outro astro aparecer (ou desaparecer) por aqui. Tratava-se do polêmico Cometa Halley, que quase ninguém viu.

Antes daquela data, em 1910, o cometa já havia causado grande pânico nos santarritenses quando alastrou a notícia de que o rabudinho liberaria um gás letal, conhecido como cianogênio, e que dizimaria toda a humanidade. Foi um corre-corre imenso na cidade. Os mais antigos contam que muitas pessoas entraram em pânico, se esconderam debaixo da cama, fizeram panelaço para espantar “o bicho” e lotaram o confessionário, em busca de redenção. Ao contrário do que muitos previram, o mundo – novamente – não acabou e cá estamos nós, à espera de 2012.

Se 76 anos antes, Halley foi apenas um grande susto que percorreu os céus de Santa Rita do Sapucaí, em 1986 não passou de uma pequena decepção. Com os dias nublados e uma dificuldade enorme de achar aquele pontinho minúsculo de calda reluzente, quase ninguém parou de assistir Roque Santeiro para olhar pro alto. Quem lucrou com sua passagem foi o comerciante Massaro, que vendia dúzias de “Lunetas do Cometa Halley”, produzidas com canudos de papelão estampados com o “tema da estação”.

No decorrer desse acontecimento pouco emocionante, assisti pela televisão à destruição do ônibus espacial Challenger, que havia partido para a “Missão Halley Espacial” e acabou explodindo, pouco depois da decolagem. No começo, pensei que aquela fumaça toda era normal. Só depois foi que me contaram que a casa havia caído para os tripulantes. Mais uma vez, o homem não havia conseguido dominar a natureza e a humanidade ficou um bom tempo sem brincar de astronauta.

A passagem de Afif (Quem?)

Para não quebrar a tradição de sempre acontecer algo realmente impactante na cidade (a cada triênio), a década de 80 terminou com a primeira eleição direta no país, em 29 anos. Das 22 chapas que concorriam ao pleito, tivemos apenas a visita do candidato Afif. Quem? Eu também não sei direito quem ele era. Só me lembro que seu bordão era o mais legal da época: “Juntos, chegaremos lá!”, acompanhado de uns sinais que queriam dizer a mesma coisa na linguagem das libras. Sua aparição deveria acontecer no terreno ao lado do campo de futebol (Alcidão), ao meio-dia, e uma grande massa de donas-de-casa e crianças compareceram para ver aquele político todo maquiado des-cer de helicóptero (outra raridade) para fazer seus famosos gestos, umas quinze vezes seguidas, e levantar voo novamente. Hoje penso que talvez o pouso do helicóptero tenha sido o motivo da minha ida até lá. Tudo aconteceu como previsto: Afif chegou com duas horas de atraso, gritou “Juntos chegaremos lá” umas 20 vezes e partiu para Santana do Brumadinho, onde repetiria o exaustivo show.

Outra lembrança que tenho da infame eleição em que colocamos Fernando Collor no poder, foi que Rinaldo Brandão realizou um baile no barracão dos Democráticos e utilizou como ingresso uma cópia da cédula eleitoral, contendo o nome de todos os candidatos – tirando o Sílvio Santos. Como ninguém estava interessado em responder questionário em noite de sábado, eu passei pelo barracão no outro dia e acabei recolhendo as cédulas em branco para realizar a minha própria pesquisa. Com 11 anos de idade, saímos eu e Fernando Cabeça, na tarde de segunda-feira, para saber qual seria o novo presidente. A urna era uma embalagem de Ortopé. Eu entregava as cédulas e o Cabeça transportava a caixa. Quando chegamos em casa, usamos a regra de três e esperamos o resultado. Não é que deu certo? Acertamos com mais precisão do que o Ibope e os dados obtidos estão guardados até hoje lá em casa, em uma gaveta qualquer.

(Carlos Romero Carneiro)

Empreendedorismo faz de município o vale das oportunidades

O Sul de Minas recebe nos dias 26 e 27 de setembro o Circuito BDMG de Inovação. As reuniões, as primeiras a serem realizadas pelo projeto do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), serão nas cidades de Santa Rita do Sapucaí, no dia 26, e em Itajubá, no dia 27. As cidades foram escolhidas não só pelo grande número de indústrias, mas também por sediarem importantes centros educacionais. Nos eventos, gerentes do BDMG vão apresentar aos empresários de Itajubá e Santa Rita do Sapucaí o Pró-Inovação, linha criada este ano pelo banco em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), objetivo de apoiar projetos de desenvolvimento e/ou implantação de inovação de produtos e serviços.
 
Também foi criado por meio da parceria entre Fapemig e BDMG a Proptec, linha destinada ao apoio às empresas situadas em parques tecnológicos, com R$ 30 milhões para serem aplicados inicialmente. O secretário de Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia de Itajubá, Francisco Pereira Braga, aguarda o evento com grande expectativa. Para Braga, a criação de uma linha de financiamento para inovação é um avanço. “Creio que temos em Itajubá diversas empresas que necessitam desse apoio” disse. O Circuito BDMG de Inovação prossegue nas próximas semanas com programação em Viçosa, na Zona da Mata, e em Uberaba, no Triângulo Mineiro.
 
Pró-Inovação
 
 A nova linha financia investimentos fixos, intangíveis e capital de giro associado, de projetos de desenvolvimento ou, ainda, na implantação de inovações em produtos e serviços das empresas mineiras. Estão sendo destinados para esta linha R$ 70 milhões, sendo que cada empresa poderá financiar até R$ 2 milhões, não podendo ultrapassar aos 80% do investimento, incluindo capital de giro de até 30% do valor do investimento total. Os juros são de 8% ao ano, sem correção monetária. A carência é de 12 meses com um prazo de 48 meses para amortização, ou seja, o empresário tem até 60 meses para quitar o financiamento.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Pe. Furu completa hoje 90 anos

Padre Furu nasceu no dia 21 de setembro de 1920, no sul do Japão, em uma península chamada Kuiamoto. Chegou ao Brasil de navio, aos nove anos de idade, como imigrante, em uma viagem que levou 40 dias. A intenção de sua família era fazer dinheiro no Brasil. Ele contou que, naquela época, os imigrantes vinham ao Brasil para ganharem dinheiro e depois voltarem. Entretanto, a maioria dos japoneses que vieram, acabaram ficando.

Padre Furu nos contou também que durante a viagem de vinda, quase caiu no Oceano Indico. Ele estava na parte de trás do navio, na popa, olhando para fora da embarcação. Naquele momento, estava ocorrendo uma tempestade e o navio balançava muito. Furu se divertia, olhando a hélice traseira do navio que aparecia todinha quando passava pelas ondas. “Ela saía todinha da água e girava no vazio. Eu achei aquilo muito engraçado e fiquei olhando”, conta. Em um determinado momento, Furu se desequilibrou e quase ficou no meio do caminho! “Quase virei comida de tubarão!” Em 1929, o Brasil estava muito mehor do que o Japão. Por isso, eram comuns as imigrações japonesas.
Logo que chegou, o menino Furusawa foi para o interior de São Paulo, a uma cidade na divisa com o mato-grosso, chamada Segunda Aliança. Ele então trabalhou na lavoura com sua família até se transferirem para a capital do estado. Nosso amigo lembrou também que, no começo, foi muito difícil aprender a língua. Durante a viagem de navio, um instrutor ensinava algumas palavras básicas como “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” aos tripulantes. Furu disse que quando foi estudar Teologia na Espanha, onde passou 5 anos, voltou falando fluentemente o espanhol, mas esqueceu como se falava o português. Por incrível que pareça, certa vez um brasileiro perguntou se ele era Argentino! Desde antes de vir para o Brasil, Furu já era católico. Ele nos contou que optou pela religião porque seu padrasto fazia parte dela. Após casar-se novamente, sua mãe, que antes era Budista, também tornou-se católica.
Após trabalhar 6 anos na lavoura, seu padrasto buscou novas perspectivas, e ele entrou para o seminário em Nova Friburgo, onde fez noviciado, juniorado e filosofado.  O primeiro padre da ETE que ele conheceu foi o companheiro Dom Vaz. “Eu estava uns 4 ou 5 anos à frente dele. Quando o conheci ele ainda era uma criança e ia visitar o irmão que também estudava lá. Depois acabou ficando.”, conta.

A chegada de Furusawa a Santa Rita foi em 1963. Um ano depois de formada a primeira turma da ETE. Logo começou a lecionar. Nosso amigo confessa que só tem apego por duas coisas na vida: à Santa Rita do Sapucaí e às pessoas dessa cidade. Prova disso foi a alegria com que ele nos contou quando recebeu o título de cidadão santarritense.
Em 1990, aos 70 anos, Furu tinha o há-bito de ir de bicicleta  até o trevo da Rodovia Fernão Dias e voltar. Certa vez, por volta das 5 da tarde, ele passou por uma ponte e caiu de uma altura de uns 4 ou 5 metros. No momento do acidente, seu corpo chocou-se com a madeira da ponte e ele quebrou meia dúzia de costelas. “Eu perdi os sentidos. Passei a noite inteira naquele frio de abril. Só no dia seguinte foi que acordei ao lado do rio-zinho e não podia nem mexer direito. Fiz um esforço enorme até subir um pouquinho e chegar ao caminho e pedir ajuda.” Depois de algum tempo, um casal que estava passando o achou e o levou até a Cooperrita. Lá, eles chamaram o motorista da cooperativa que o transportou até o hospital. “Eu passei muito mal. Pensei que fosse morrer.”  Depois que se recuperou Furu continuou andando de bicicleta. Ele aposentou a magrela apenas em 2003, 13 anos depois do acidente.

Esta matéria é um oferecimento de:

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Empório 46 - Hoje nas Bancas

Empório 46 - hoje nas bancas. Nesta Edição:
Aos 94 anos, Haydée Cabral lança autobiografia e fala sobre sua infância em Santa Rita/
Dez anos depois, como o ataque ao World Trade Center influenciou a vida dos Santarritenses/
Nídia Telles e suas memórias do dia 7 de setembro / A história dos escoteiros em Santa Rita /
Padre Ramon se despede dos jovens Rafinha e Caíque / A história do Esguicho /
Os primeiros registros de Santa Rita / Os bastidores do poder no início do século

Atendendo a pedidos, a foto que deu origem à capa desta edição:
Início da Rua Silvestre Ferraz - Acervo de Carlos José Ribeiro.

Beleza anônima (Podcast de Evandro Carvalho)

Beleza anônima by hevandrocarvalho

Um grande construtor

Toda grande obra necessita de um construtor à sua altura. Na história da Escola Técnica de Comércio, esse papel coube ao professor João Cellet. Diretor da instituição entre fevereiro de 1962 e março de 1977, ele soube demons-trar que uma obra educacional não se resume em um conjunto de salas preenchidas com móveis e equipamentos. Além de conduzir com mãos firmes a construção do prédio próprio da ETC, preocupou-se diuturnamente com o ensino, a disciplina e a transparência, empregando sua credibilidade para a consolidação do estabelecimento de ensino.
O ex-diretor nunca deixou de lecionar nos 22 anos em que labutou na escola. Sua contratação se deu em 1955, a convite do professor Alan Kardec Nascimento, para as disciplinas de contabilidade (geral, comercial, industrial, pública e bancária). À época, João Cellet era cotista da ETC e um dos contadores mais respeitados da cidade. Havia concluído o curso técnico de contabilidade, em Varginha, e comprado o escritório de Homero de Mattos, em Santa Rita, juntamente com o sócio César Duarte.

Não foi fácil o início da gestão de João Cellet na diretoria da Escola de Comércio. Quando foi empossado, o curso técnico de contabilidade deixava de funcionar nas dependências da Escola Técnica de Eletrônica, que crescia a cada ano e solicitava aquele espaço para novas atividades. O único caminho que restou ao diretor foi negociar o retorno às salas do primeiro andar do Grupão, mediante pagamento de aluguel. Algumas turmas, principalmente do curso comercial básico, chegaram a ter aulas nas instalações do antigo IMEE.

Ainda sob o fantasma das limitações financeiras, a escola era mantida, basicamente, pelo pagamento das mensalidades de alunos. Uma parcela menor da receita procedia de taxas de matrícula, admissão e transferência, entre outras. Foi em momentos de dificuldade que a figura serena de João Cellet se sobressaiu pela dignidade e grandeza que sempre marcaram sua trajetória. Em silêncio, o diretor emprestava dinheiro do próprio bolso à ETC para evitar que as contas fechassem com números negativos. Os empréstimos somente eram quitados quando a escola obtinha saldo suficiente – e os juros não eram cobrados.
João Cellet administrou as finanças da escola com honestidade e parcimônia. Desperdício era inadmissível. Para economizar, o diretor mandava reformar carteiras e até apagadores. Ampliar o acervo da biblioteca foi um trabalho árduo que dependeu de doações e sacrifícios – exemplo disso foi a compra da primeira Enciclopédia Barsa que a-conteceu de forma parcelada, em 1971.

Nos 15 anos em que dirigiu a ETC, João Cellet empenhou-se com todas as forças na obtenção de uma sede própria. A primeira tentativa aconteceu no início dos anos 60, quando o Educandário Santarritense adquiriu o prédio e o terreno que haviam pertencido ao IMEE. Mas a Escola de Comércio não utilizou esse espaço por muito tempo, visto que, em 1965, a maioria dos membros do Educandário decidiu doar o patrimônio ao recém-criado Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel). O destino da ETC foi selado em uma nova reunião da entidade mantenedora, na qual o Inatel se comprometeu a auxiliá-la financeiramente na construção do prédio próprio à medida que recebesse verbas governamentais.

A solução do impasse evitou que mais de 500 alunos dos cursos básico e técnico ficassem sem salas para estudar. As turmas foram transferidas temporariamente para a Escola Nossa Senhora de Fátima, de propriedade da Paróquia de Santa Rita. Enquanto isso, João Cellet buscava donativos para erguer um prédio no local em que funcionou a Santa Casa da cidade, na primeira metade do século XX. O terreno pertencia à Fundação Dona Mindoca Rennó Moreira (mantenedora da ETE) e foi vendido ao Educandário Santarritense por um valor simbólico, graças à sensibilidade do padre José Carlos de Lima Vaz.
As obras foram iniciadas em janeiro de 1966, ano em que o incansável João Cellet conseguiu mais de 1 milhão de cruzeiros em doações, além de uma verba federal de 10 mil. Houve também um empréstimo do empresário José Palma Rennó (10 mil cruzeiros), quitado com o dinheiro recebido do Inatel. A Paróquia de Santa Rita colaborou com outro empréstimo de 16 mil unidades monetárias da época.

No dia 1º de março de 1967, foram inauguradas as 12 salas que compõem o primeiro bloco da escola, em formato de “L”. É com esta letra que se escreve liderança e laboriosidade – duas das muitas qualidades de João Cellet.
(Carlos Romero)
Esta matéria é um oferecimento:

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A última Rainha do Clube Santarritense

O coração da menina Marly de Castro disparou ao receber a visita de três figuras ilustres da sociedade Santarritense, no verão de 1956. Sua euforia não foi tanto pela visita de Nilo Marinho, Alcyon Brentan e sua esposa Martha – membros da diretoria do Clube Santarritense – mas pelo convite que eles estavam prestes a fazer.

No tempo dos grandes bailes, animados por orquestras de renome como Casino de Sevilla e pelo cantor chileno Lúcio Gatica, o sonho de toda adolescente era ser coroada Rainha do Clube ou Rainha dos Estudantes. Aquele acontecimento significava um título que concederia a elas a distinção de mais bela e representativa garota entre todas as outras da cidade. Para Marly não era diferente. Dona de uma beleza ímpar e de uma enorme simpatia, a estudante de 17 anos também sonhava com uma noite em que receberia tal honraria.
O ritual de coroar a moça que melhor representasse a beleza local teve início em 1926. Em um dos primeiros bailes do Clube Literário Santarritense, localizado no prédio ao lado dos antigos casarões da praça, uma garota tímida recebeu o primeiro título de Rainha dos Estudantes. Mal sabiam os santarritenses que em algumas décadas ela se tornaria a mulher mais importante de que a cidade teve notícia: Sinhá Moreira. Nos anos seguintes, o título foi muito cobiçado pelas alunas da Escola Normal. Garotas como Jurandy Cabral, Carminha Rennó Moreira e Glorinha também teriam direito a esta noite tão inesquecível.

O pai de Marly hesitou muito ao receber o convite da diretoria do Clube Santarritense. Muito reservado e absolutamente avesso a eventos sociais, Sílvio Palma só deu o aval quando Nilo Marinho prometeu que a acompanharia na entrada da cerimônia. Solicitação aceita, o sonho de sua filha seria finalmente concretizado no dia 22 de maio de 1956.

Terno e Gravata, vestidos exu-berantes, lindas decorações e grandes números musicais. Essa era a realidade dos Bailes do Clube Santarritense. Marly Fontes conta em sua obra “ Casos e Causos – história de gente comum” que na coroação de sua mãe (Glorinha) foi necessário comprar duas passagens de trem: uma para o vestido e outra para o portador. Nestas festas, as meninas se preparavam com meses de antecedência. Se o baile acontecesse em maio, era preciso contratar as estilistas Lívia Martinez e Estelinha Raposo no começo do ano para não correr o risco de encontrá-las “apertadas de costura”.
Chegara, enfim, a esperada noite em que a linda Maria Lúcia Campos do Amaral transmitiria a faixa para sua sucessora, após dois anos de recesso nas coroações. Tudo havia sido planejado para se tornar o mais inesquecível de todos pois significava a retomada de um ritual muito valorizado pelos santarritenses. As decorações em madeira ficaram por conta dos geniais irmãos De Franco. A Orquestra Jazz Brasil do grande Maestro Carmello Carneiro de Abreu daria vida ao espetáculo. Já o cantor escolhido não poderia ser ninguém menos que a voz mais marcante que Santa Rita já conheceu: o inesquecível Orozimbo Silva.

“Quando subíamos aquela escadaria, um arrepio percorria o corpo todo. Aquele prédio parecia gigante diante de tanta emoção.” – relembra a educadora Marly. Personalidades de várias cidades da região, juntamente com suas mis-ses e representantes, ostentavam lindas joias que adornavam longos vestidos. De todas elas, a mais cortejada era Anelise Kjaer, eleita naquele ano Miss Minas Gerais e terceira colocada no Miss Brasil. Decididamente, as mulheres mais bonitas do estado estavam presentes naquela festa que prometia atravessar a madrugada ao som de “Night and Day” e “Blue Moon”.

“Corre na entrada! Ela vem chegando!” – gritou o diretor da equipe de cinema contratado para registrar o acontecimento. Com um indefectível vestido branco, cravejado de strass, Marly foi recebida pelos convidados com efusivas palmas. Enquanto caminhava pelo corredor que dava acesso ao palco, a menina notou que a extensão do corredor parecia ter se duplicado. Não era para menos:o momento seguinte ficaria marcado para toda a sua vida.
Maria Lúcia, rainha de 1954, enfim presenteava Marly com a coroa usada por todas as rainhas que as antecederam. Ato contínuo, transmitiu a faixa e teve início o baile, assim que o presidente Henrique Amorim convidou a rainha para a dança. Coube ao prefeito José Alcides Rennó Mendes realizar o mesmo pedido à Miss Minas Gerais. Ao som de uma canção de Bing Crosby, a festa estava apenas começando.

Quando Orozimbo e a Jazz Brasil executaram Besame Mucho, a juventude local, formada por santarritenses como Róssio de Marchi, Paulo Julidori, Maria José (Mimi), Ângelo Borsato, Carlos Alberto e Iveta Borsato, tomaram conta do salão. Apesar de a festa ter se estendido até quatro da manhã, mal o sino da matriz anunciou uma e meia, Marly já receberia o recado de que seu pai a estava esperando na porta. Apesar de ser a figura principal daquela noite, a garota se despediu rapidamente e não demorou para se retirar com receio de que fosse proibida de frequentar as noites seguintes. Nada importante. Um sonho havia se realizado e, para ela, aquela festa ficaria guardada para sempre no relicário de suas mais incríveis recordações.

(Carlos Romero Carneiro)

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sábado, 17 de setembro de 2011

Bomba! Gina dos Palitos vive em Santa Rita

Gina na década de 70, durante produção fotográfica para os palitos roliços de madeira.
Nesta semana, recebemos um e-mail anônimo e até chegamos a acreditar que era apenas uma brincadeira. O tempo se encarregou de nos provar o contrário. Logo no título da mensagem notamos que algo de muito interessante estava prestes a ser desvendado: “Eu sei onde se esconde a Gina”.  Afinal, a qual Gina tal pessoa se referia? Correndo os olhos pela página percebi que ele se referia à lendária “Gina dos Palitos”: uma loira sorridente que enfeita a tradicional embalagem dos palitos roliços de madeira. A única pista que o email nos dava sobre sua identidade era de que ela estaria vivendo em Santa Rita. Nosso informante também indicava que a moça continuava com as longas madeixas douradas e que sua fisionomia pouco mudara desde a produção da foto.

Comecei a procurar pistas que me revelassem onde estaria a Gina e só consegui resultados concretos quando recebemos outro email com mais uma dica: a suposta loira da caixinha marron estaria trabalhando como representante da Herbalife. Eureka! Desde então, passei a observar cada uma das vendedoras que ostentavam aquele brochinho com os dizeres: “Quer perder peso? Pergunte-me como.”

Duas semanas se passaram e nada. Confesso que estava prestes a desistir quando tive uma visão. Eu percebi uma loira muito parecida usando aquele bendito brochinho enquanto fazia compras na Banca de Frutas do Dito. Só podia ser ela! Bastou abordá-la, como quem não quer nada e pronunciar o código secreto: “Como perco peso?” e a moça havia caído na minha armadilha!

No dia seguinte, a vendedora me atendeu educadamente em sua residência e, assim que entrei, comecei a procurar vestígios que a identificassem com a modelo de palitos mais famosa do planeta. Não havia nenhuma fotografia ou objeto que a identificasse, mas um fato me chamou bastante a atenção. Ela possuía um pequeno naco de comida preso ao molar e, ao que tudo indicava, os shakes que ela vendia não eram suficientes para manter sua alimentação diária.
Foto atual da Gina dos palitos. Ela vive na Vila das Fontes.
Um pouco sem jeito, tratei de avisá-la sobre a pequena carne amaranhada à sua arcada e isso foi o suficiente para que ela corresse à cozinha e voltasse com a caixinhas de palitos. O mais engraçado foi que ela utilizou o produto sem colocar a mãozinha para esconder a boca, como se estivesse desejando - insconscientemente - que eu a associasse à marca.

Chegou a hora. Bastou eu dizer que ela se parecia com a famosa Gina para que se transformasse por completo. Como num passe de mágica sua fisionomia se converteu em pânico e ela gritou, ensandecidamente: Maldição!!!

Consternada, Gina me contou que depois da fotografia nunca mais conseguiu emprego. Sua vida havia se tornado um martírio desde que seu sorriso passou a fazer parte do cotidiano de milhares de famílias. O mistério havia sido revelado. Para não perder a viagem, decidi fotográfa-la como recordação e aplicar sua foto atual na caixinha para que os leitores tirem suas próprias conclusões. Missão cumprida.
(Por Yvelise Filha)
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Mãe e mestra

Fátima é uma cidade portuguesa em que a mãe de Jesus Cristo teria feito revelações a três crianças. Cecília é o nome da santa católica escolhida como padroeira dos músicos. Seguro significa livre de perigo, firme, inabalável. Carvalho é a árvore que simboliza solidez, resistência. A soma dessas quatro definições ajuda a compreender algumas facetas e virtudes da atual diretora do Colégio Tecnológico, Fátima Cecília Seguro de Carvalho: mãe atenciosa, educadora sábia, mulher com sensibilidade artística, administradora obstinada.

Assim como o fundador Homero de Mattos e outras estrelas de primeira grandeza do colégio, Fátima nasceu em outras paragens, mas escolheu Santa Rita do Sapucaí para espargir sua luz em forma de conhecimento. Aqui chegou há exatos 20 anos, carregando em sua bagagem profissional experiências na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e em uma pequena escola de São Paulo, sua terra natal.

Inicialmente, Fátima foi contratada pelo Colégio Tecnológico como supervisora pedagógica da pré-escola. Com o correr dos anos, a dinâmica profissional foi assumindo a supervisão de outros níveis de ensino – 5ª a 8ª séries do ensino fundamental, ensino médio e cursos técnicos. Ela também se destacou como professora, lecionando gestão de recursos humanos no curso de contabilidade.

O intenso ritmo de trabalho no colégio não impediu que Fátima prosseguisse seus estudos. Formada em pedagogia plena, fez pós-graduação nas áreas de gestão de RH, currículo e prática educativa, além de especializações em administração escolar, supervisão pedagógica e didática. Fátima sempre trabalhou duro, mas sem perder a ternura. A coexistência de competência técnica e sensibilidade maternal credenciaram a professora paulistana para o exercício da direção da escola, a partir de fevereiro de 2007.

Fátima não tem sido diretora, em vão. Possui ideias originais e coragem para concretizá-las. E é isso que ela vem fazendo com o apoio constante da comunidade escolar e da fundação mantenedora. Um dos fatos marcantes de sua gestão foi a inclusão do colégio na Rede Mineira de Formação Profissional, do governo estadual, em 2007. Essa parceria viabiliza a concessão de bolsas de estudos a centenas de jovens que buscam diplomas de técnico. No ensino médio há bolsistas auxiliados pela Fundação Educandário Santarritense.

A reabertura do Curso Técnico de Contabilidade, em 2008, é outra importante decisão de Fátima. O retorno às origens apresenta bons resultados até agora. “A ideia foi minha. Sempre achei muito importante ter esse curso renovado, porque foi a contabilidade que abriu esta escola. O curso está tendo boa procura, principalmente por uma clientela mais madura”, re-vela a diretora com entusiasmo.

Entre muitos acontecimentos de sua gestão, Fátima recorda, com carinho, da inauguração da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, no dia 10 de maio de 2008. Aquele momento lhe foi duplamente especial, pois cabia à diretora dirigir a cerimônia que marcava a materialização de seu próprio sonho. As palavras do cônego Vonilton Augusto Ferreira e os acordes da Lira Santa Rita emocionaram a diretora, aplaudida na ocasião por centenas de alunos, pais, colaboradores e amigos. “Tenho boas lembranças da gestão anterior, fiz bons amigos: Lúcia Vilela, Maísa - com quem aprendi bastante - e Maria Aparecida de Cássia Gruitter - a inesquecível tia Cida - que esbanjava simpatia e bom humor com todos. Foi um tempo incrível. Eu adorava.” - conta a diretora Fátima. A diretora tem se empenhado em melhorar a estrutura física, sem se descuidar do conteúdo das aulas. Só assim uma escola se mantém como templo do saber.
(Por Jonas Costa)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Projete - a Feira de Projetos da ETE FMC - chega à sua XXXI Edição

A Face Humana da Educação

A professora Maria Luiza Campos do Amaral Moreira (Maiza) lutava contra um câncer de mama, no início de 1993. Após uma cirurgia, ouviu de seu médico algumas palavras que soaram como sentença: “A sua sobrevida depende do que você vai fazer da sua vida. Você precisa se distrair. Não fique pensando na doença. Arranje um trabalho”. Mesmo sendo advogada e tecnóloga em processamento de dados, Maiza não fazia ideia de como retomar sua carreira profissional naquelas circunstâncias. Coincidência ou não, seu nome era analisado na mesma época para ocupar a direção do Colégio Tecnológico Delfim Moreira.

Maiza recebeu a notícia de sua indicação como uma agradável surpresa. Entre uma visita e outra no momento de convalescença, um trio de amigos bateu à sua porta convidando-a para o cargo: o monsenhor José Carneiro Pinto, a professora Maria Aparecida de Cássia Grüitter e a secretária Maria Lúcia Vilela. Maiza enxergou naquela visita especial um sinal divino.

Ao ser empossada na diretoria, em fevereiro de 1993, Maiza fez questão de reunir todos os funcionários do colégio para pedir-lhes apoio à sua gestão. Apesar de nunca ter participado do corpo docente da escola, ela havia sido testemunha dos primeiros passos da instituição. Seu pai, Oswaldo Campos do Amaral, foi um dos primeiros inspetores da Escola de Comércio, a qual já era assunto de família desde a infância de Maiza. Mais tarde, uma das irmãs da futura diretora, Maria Lúcia, matriculou-se no curso de contabilidade e sempre pedia que ela a acompanhasse até o portão da escola.

Maiza chegou a estudar contabilidade por alguns meses, mas o interesse pelo curso de magistério falou mais alto. E foi justamente o amor à educação que a levou a cruzar novamente o portão do Colégio Tecnológico. Ex-professora do Grupão, ela não demorou a perceber que o alto nível das escolas públicas santarritenses inibia as matrículas em estabelecimentos particulares. Era necessário, portanto, encontrar estratégias para elevar ainda mais o conceito do colégio.

O primeiro passo foi incentivar o entrosamento entre profissionais de turnos diferentes. Ao final de quatro anos, todos se conheciam melhor. O espaço físico também foi aperfeiçoado, com a construção de seis salas de aula. Outro fato que marcou aquela gestão foi a adoção do material didático da rede Pitágoras, de Belo Horizonte. Com a sua saída, em dezembro de 1996, a parceria com a rede foi interrompida.
A passagem de Maiza pela direção foi saudável e merecia continuidade. Por isso, mais dois mandatos foram exercidos entre março de 1999 e janeiro de 2007, sempre com a colaboração entusiasmada da vice-diretora Aparecida de Cássia, a estimada “Tia Cida”. Para colocar em prática seus novos planos, Maiza reuniu em torno de si uma equipe de imensa competência. A atuação da então supervisora Fátima Cecília Seguro de Carvalho foi fundamental para a criação do curso técnico de enfermagem, em 2002. No mesmo ano, formava-se a primeira turma do curso técnico de informática, estruturado pelo professor Moisés Rennó Vilela.

O trabalho impecável da equipe de Maiza remodelou o colégio, tornando-o mais moderno. No aspecto físico, as maiores obras foram a cobertura da quadra esportiva (graças ao trabalho da APM) e a inauguração de novos espaços (pré-incubadora, biblioteca, dois laboratórios de informática e um de enfermagem). O ensino médio foi reativado e a educação infantil ampliada. Uma parceria de sucesso foi firmada com o sistema Positivo, de Curitiba. Maiza abriu as portas do colégio para alunos da Creche Santa Rita e presidiários atendidos pela Pastoral Carcerária – estes projetos renderam ao colégio o prêmio Escola Solidária.

Em 12 anos de gestão, Maiza Moreira, talvez involuntariamente, deixou a escola cada vez mais parecida com sua diretora: humana, prática, preparada e vitoriosa. Sua enfermidade desapareceu junto com as antigas deficiências do colégio. A chave do sucesso, segundo a professora, é trabalhar com fé e amor. Lição simples, mas remédio infalível.
(Por Jonas Costa)
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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

10 livros que você precisa ler para entender Santa Rita do Sapucaí

Diversas obras literárias foram produzidas em Santa Rita do Sapucaí e merecem ser apreciadas por quem deseja desvendar um pouco de nossa história. Alguns livros foram produzidos na cidade mas dados como fictícios. Outros fazem referências diretas aos nossos conterrâneos e trazem à tona os primórdios do município. A seguir, selecionamos 10 obras sobre Santa Rita do Sapucaí que você precisa ler para conhecer a cultura local.

1) Crônica das Casas Demolidas (Cyro de Luna Dias)

“Crônica das Casas Demolidas” é considerado por muitos o maior romance histórico já produzido em nossa terra. A obra retrata o início da colonização santarritense através da visão do neto de um dos primeiros moradores da freguezia. O fio condutor desta história magnífica é a trajetória das duas casas mais antigas da cidade e a vida de seus moradores que se entralaçavam com as origens de nosso município. O autor, apesar de falecido, continua muito cultuado e os exemplares de sua produção podem ser encontrados em diversos sebos do país.

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2) Cartas de Glorinha (Seleção de Marly Fontes)

Esta obra reúne centenas de cartas produzidas por Maria da Glória Moreira, conhecida como Glorinha, enviadas de 1928 a 1949, ao seu futuro esposo Joaquim Barbosa de Figueiredo – o Quinzote. Marly Fontes, filha do casal, reuniu e editou todas as correspondências de sua mãe no decorrer da vida e o resultado foi o mais completo apanhado histórico do cenário local na primeira metade do século XX. Esta preciosidade permite ao leitor conhecer um pouco da intimidade do casal e seus costumes, ao mesmo tempo em que viaja através dos olhos de uma garota que evolui no decorrer de sua breve existência. 

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3) O Clínico Geral (Doutor Eduardo Adami)

Apaixonado por histórias e lendas que envolvem não somente a cidade, como também sua profissão, o Doutor Eduardo Adami se aventurou pelas veredas literárias e colheu dezenas de depoimentos sobre a história da Medicina em Santa Rita do Sapucaí. Muito bem produzida e também emocionante para quem conheceu as personalidades descritas, “O Clínico Geral” é um rico apanhado de acontecimentos e lendas vividas pelos pioneiros na área médica. Alguns momentos são emocionantes, outros são hilários, mas todos inquestionavelmente imperdíveis. 

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4) Trem de Manobra e Menino do Balaio (Cônego Carvalhinho)

Produzidas por Carvalhinho, um polêmico cônego que viveu em Santa Rita nos meados do século passado. Duas de suas obras - “Trem de Manobra” e “Menino do Balaio” trazem a trajetória e as confissões de um dos homens mais geniosos e interessantes que a cidade já conheceu. Enquanto “Trem de manobra” desvenda parte da vida sacerdotal do autor, incluindo os anos em que ele esteve por aqui e os acontecimentos da época, “Menino do Balaio” reproduz muitas lendas locais e a história de um de seus aprendizes. 

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5) Pulando a cerca (Elias Kallás)

Elias Kallás precisou criar diversos nomes fictícios e dar certo brilho às histórias para produzir esta obra que de fantasiosa não tem quase nada. Em 11 contos, o autor reproduz o cotidiano e os fatos pitorescos de sua juventude com uma narrativa hilária e muito bem construída. Tão interessante quanto os causos, é desvendar quem são os verdadeiros protagonistas destas histórias que levam o leitor aos risos em cada uma de suas linhas. 

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6) Minha Vida (José Cabral)

A biografia do grande Advogado José Cabral tem início na antiga Fazenda do Paredão, propriedade onde seu pai – o todo poderoso Erasmo Cabral – com-prava e vendia grande parte do café produzido na região para, em seguida, vendê-lo aos grandes exportadores. Tais memórias reproduzidas neste livro são relevantes documentos de uma época em que a cidade era alçada e dirigida pelos mais famosos coronéis que hoje dão nome às ruas.

7) A província do Rio Sapucahy (Senador Godoy)

O documento produzido pelo então Senador Floriano de Godoy, em 1887, é um dos projetos mais audaciosos e interessantes já produzidos sobre nossa região. Tal livro, muito raro, chegou às minhas mãos através de Luiz Fernando Almeida (Presidente do Iphan), assinado pelo presidente Café Filho, e mostra o que seria de nós caso o sul de Minas e o norte de São Paulo dessem origem a uma nova província. Além dos estudos detalhados de nossa situação demográfica e das características regionais, o livro apresenta projetos muito interessantes envolvendo a união da produção cafeeira sul mineira com a capacidade de escoamento do litoral paulista. Incompreendido por muitos contemporâneos, as ideias do senador Godoy acabaram guardadas em uma gaveta, mas não deixaram de chamar a atenção.

Barca de Gleyre (Monteiro Lobato)

Quando Delfim Moreira foi governador de Minas, seu interesse por Santa Rita do Sapucaí era tão grande que chegava a escolher grandes personalidades da época para ocupar cargos públicos na cidade e designava excelentes professores para lecionar em nossos estabelecimentos de ensino. Um deles, Godofredo Rangel, era o melhor amigo de Monteiro Lobato e hoje é considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira. No tempo em que esteve na cidade, o juiz trocou centenas de cartas com o criador do Sítio do Pica-pau amarelo. As correspondências de Lobato acabaram virando livro e trazem muito da visão que seu amigo tinha de nossa terra. 

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9) Tudo Começou Aqui (Carlos Romero e Jonas Costa)

Em comemoração aos 50 anos da Escola Técnica de Eletrônica, os fundadores do jornal Empório de Notícias – Carlos Romero e Jonas Costa – se reuniram para retratar o início da revolução educacional que mudou a face do município. Coube ao jornalista Jonas desenvolver os textos e ao publicitário desenvolver a direção de arte do projeto. O resultado foi um livro muito bem construído sobre a obra mais incrível de Sinhá Moreira. Já em 2010, a dupla retornou ao batente para produzir uma revista em comemoração aos 60 anos do Colégio Tecnológico (antiga Escola de Comércio). Novamente, os leitores puderam conhecer as faces de nossa trajetória através de uma ampla pesquisa histórica. 

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10) Bilac Pinto, o homem que salvou a República (Murilo Badaró)

Como pode um menino da Rua do Queima ganhar o Brasil e se tornar uma das figuras mais importantes do século XX? A missão de desvendar este mistério coube ao famoso político Murilo Badaró que retratou muito bem a vida do santarritense em sua última produção literária. É incrível descobrir que Bilac ganhou tamanha influência no futuro do país e conhecer seu desafio de fazer com que continuássemos vivendo em uma democracia.

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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Feira de Projetos da ETE FMC incentiva a criação de soluções para o Vale da Eletrônica

A humildade de um vencedor

João Teles de Souza tinha 19 anos, um emprego de padeiro e uma esperança incomensurável quando se matriculou no curso comercial básico da ETC. Juntamente com o ano de 1958, nasciam muitos planos na mente de um jovem batalhador oriundo de família pobre.

Criado em 1957, o curso básico (hoje equivalente às quatro últimas séries do ensino fundamental) era a oportunidade que faltava para o sucesso profissional de João Teles e de muitos outros operários de origem humilde. “Quando se criou o comercial básico, eu o abracei com todas as forças. Tinha terminado o Tiro-de-Guerra com uma vontade doida de estudar”, rememora João, mais de meio século depois.

João Teles não desperdiçou a chance de ter uma nova profissão. Quatro anos o separavam de um diploma que o credenciaria para atuar como auxiliar de escritório. Para iniciar os estudos noturnos foi preciso negociar com o patrão uma mudança no horário de trabalho. O padeiro, que antes labutava das 6h às 21h, agora saía do trabalho às 18h. Da padaria foi transferido para o empório do mesmo dono, passando a desempenhar as funções de balconista e entregador de compras.

Menos de um ano após a conclusão do curso básico, João envergava o uniforme do hoje extinto Banco Mineiro da Produção, no qual permaneceu até 1972. Nesse intervalo, formou-se técnico em contabilidade pela ETC (1964) e bacharel pela Faculdade de Direito do Sul de Minas (1970). Sua passagem pela Escola de Comércio na condição de aluno foi encerrada com chave de ouro: ele foi um dos 75 bolsistas daquele ano e orador de sua turma na cerimônia de formatura.

O esforço de João Teles foi imediatamente reconhecido pela ETC que o contratou, no início de 1965, para lecionar prática de comércio. Com o passar dos anos, assumiu outras disciplinas (contabilidade e economia política, por exemplo). O contrato com a escola durou até 1976, quando João ocupava o posto de superintendente da Cooperativa Regional Agropecuária de Santa Rita do Sapucaí, a CooperRita. Ele lecionou também na Faculdade de Administração e Informática (1971 a 1977 e 1994 a 2007) e na Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (1975 a 2000).

Depois de construir uma invejável carreira profissional, o professor e advogado conquistou a merecida aposentadoria em 1993. Os anos de relacionamento com a Escola de Comércio pareciam destinados a não passar de agradáveis lembranças, nas quais estava incluído o primeiro encontro com a esposa Odiléa de Paiva Teles, ex-aluna de contabilidade. Entretanto, coube a João Teles mais uma nobre missão: o cargo não-remunerado de diretor financeiro da Fundação Educandário Santarritense (FES), mantenedora do Colégio Tecnológico e da FAI.

Assim como ocorreu nas etapas anteriores de sua vida, não foi em vão que ele assumiu o novo posto. De 1997 para cá, é um dos responsáveis pela reestruturação da FES, processo que englobou reformas estatutárias e alterações no organograma. Sua prioridade é fazer da fundação um instrumento cada vez mais funcional. Competência nunca lhe faltou. Humildade também não, como atestam sua vida e a seguinte declaração: “O pouco que pude fazer dentro da minha condição de profissional devo exclusivamente à Escola de Comércio”.
(Por Jonas Costa)
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Um clube de regatas por aqui?

Tomamos a liberdade de lembrar à nova diretoria do Club Literário sobre a conveniência do esporte entre os associados. Mas que esporte haveria de ser? O futebol parece-nos muito pesado para o clima tropical e, por isso, lançamos uma grande ideia: anexo ao Club Recreativo, nós poderíamos fundar uma seção de regatas, com remo e natação. Todos sabemos que o Rio Sapucaí se presta para isso. Com o bom êxito dessa iniciativa, naturalmente nossos vizinhos, servidos por semelhante artéria fluvial, também fundariam associações parecidas, facilitando entre nós o intercâmbio desportivo. Sem longos comentários sobre os benefícios que poderiam advir deste esporte, podemos afirmar que ele é o mais completo no gênero, pelo fato de se poder praticar em qualquer clima e de desenvolver, simultaneamente, órgãos e músculos do exercitante. No mais, Santa Rita não poderá deixar de manter ao lado de seus excelente estabelecimentos de ensino, um esporte que, como elemento eugênico, cooperará para a formação física de nossas gerações. Afinal, “em corpo são, boa inteligência”. 
(A FLAMMA – maio de 1926)

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Viagem a Santa Rita de 1874

Apertem os cintos

Se o distinto leitor pudesse entrar, hoje, em uma máquina do tempo e voltar à segunda metade do século XIX, provavelmente não reconheceria imediatamente o local. Isto porque, por volta de 1874, a freguesia de Santa Rita da Boa Vista dava seus primeiros passos e buscava recursos das maneiras mais primitivas possíveis. Naquela época, ainda não havia os tradicionais cafezais que contornam o vale. A principal fonte econômica da cidade era a plantação de fumo e a produção de toucinho. A venda de porcos também movimentava a economia desta região, onde os correios só passavam de três em três dias.

O comandante das redondezas era o comendador Custódio Ribeiro: um dos 11 eleitores que a freguesia possuía e que votava no colégio de Pouso Alegre. Cabia a ele as funções de Juiz de Paz, Subdelegado e Diretor da primeira Banda de Música da Cidade. Sua fonte de renda era a fazenda do Balaio: único ponto de referência de nossa cidade no mapa mundi da época. Antes de vir para a região, Custódio era soldado da corte portuguesa e recebeu o título de “Estribeiro Mor do Imperador”. Da corte veio seu gosto pela música e o seu desejo de criar uma banda para a cidade. De sua importância como lavrador, vinha o poder para manter a freguesia em ordem. Quase tudo girava em torno de suas decisões.

Vale dos engenhos

Em um tempo em que a extração do ouro era comum nas redondezas, cabia ao senhor José Geraldo da Costa a função de compra e venda do minério. Engenhos de cana havia doze. Cinco deles, movidos a água. No entanto, o mais interessante, eram as engenhocas criadas por um importante lavrador, que, por acaso, também era padre chamado Joaquim Daniel Leite Ferreira. As máquinas que criava sempre deixavam os santarritenses de boca a-berta.

Dois sapateiros, um dentista

No tempo do João Onça tudo era muito distante e de difícil acesso, mas existiam dois sapateiros na Freguesia. Era deles a missão de reconstruir velhas botinas e produzir outras novas. Já Dentista, só tinha um: Seu Francisco de Oliveira Castelo. Sua função era mais retirar os dentes velhos do que consertar os bons.

Dia de quermesse

Nos dias de quermesse, os fazendeiros deixavam suas propriedades e pegavam o caminho da freguesia. As 108 casas eram construídas em terrenos comprados da paróquia e distribuídas nas únicas cinco ruas da freguesia ou na praça que contornava a velha e castigada Matriz. Mal começavam os festejos, o senhor Carolino Luiz de Almeida já preparava sua pequena corporação musical em frente à igreja. Pouco antes da missa começar, Joaquim Ourives, o fogueteiro oficial da freguesia, iniciava uma salva de tiros que ecoava por todo o vale e avisava os santarritenses que o Vigário Antônio Vieira já estava impaciente para começar a cerimônia. Dentro da igreja, os melhores lugares - mais à frente - eram destinados aos mais endinheirados, dentre eles: o Alferes Custódio Ribeiro,  o Capitão Joaquim Ribeiro de Carvalho e Roque - o filho de Braz Fernandes Ribas - pioneiro de nossa colonização.

Quem documentava tudo durante as festas era o retratista Antonio Português, que cobrava uma fortuna por cada “vista”. Quando a noite caía, quem não tinha residência fixa acabava pousando no único hotel da cidade, de propriedade do senhor Antônio Francisco Vilela.

Almanaque histórico

Em 1874, um almanaque registrou os detalhes da promissora freguesia e acabamos trazendo um deles para compor a história. Era assim Santa Rita da Boa Vista em 1874:

Há no caráter do povo mineiro alguma coisa que vale mais do que esse gênio hospitaleiro apregoado. É a sua boa fé e simplicidade de costumes que há muito fugiu das grandes cidades para se abrigar nas remotas aldeias. Sob este ponto de vista, a freguesia de Santa Rita pode ser colocada entre as primeiras povoações de Minas.

Quem precisar repousar de uma viagem, quem quiser conhecer gente de tempos primitivos, em que a religião e a virtude são os principais deveres do homem, que procure este lugar ameno.

Não é, porém, só com religião e prática da virtude que se preocupa o espírito dos habitantes de Santa Rita da Boa Vista. Eles também são laboriosos e muitos, por apurado trabalho, têm acumulado, na lavoura, grande fortuna.

Compõe-se a população de 108 casas, algumas das quais muito bem construídas, e que formam 5 ruas e uma grande praça onde está colocada a velha igreja matriz. Este templo, de proporções acanhadas, está se arruinando, mas o povo já começou a edificação de um outro mais vasto e com fundamentos mais sólidos. Além disso, está também em construção um cadeia que, após concluída, excederá algumas existentes em importantes cidades.

Há, na freguesia, uma corporação musical que, para sua organização, muito concorreu o Alferes Custódio Ribeiro Pereira. A escola pública existente é frequentada por mais de cinquenta alunos e, além dela, outros estudam com professores particulares.

A cultura principal dessa freguesia é o fumo, cuja exportação anual ultrapassa trinta mil arrobas. Exporta-se também cerca de duas ou três mil arrobas de toucinho, além de mil e tantos cevados que são vendidos vivos.
Os terrenos, em geral, são férteis e dão com abundância todos os mantimentos. Há terra apropriada para a plantação do café, mas esta cultura ainda está muito no começo.

Desta freguesia é filho o reverendíssimo padre João Baptista Freissat, virtuoso sacerdote que está hoje empregado no seminário do Caraça.

Santa Rita da Boa Vista dista 65 léguas da corte; 75 de Ouro Preto; de Itajubá, que é sede do município e da comarca, 7; de Campanha, que é a sede eclesiástica, 11; de Pouso Alegre, 5; e da Estação da Boa Vista, na Estrada de Ferro Dom Pedro II, 25 léguas. A paróquia dá 11 eleitores pertencentes ao colégio de Pouso Alegre e tem qualificados 480 votantes. São eles os eleitores: Alferes Custódio Ribeiro Pereira, Tenente Manoel Ribeiro de Carvalho, Joaquim Ribeiro de Souza Magalhães, Joaquim Cândido Ribeiro, Antônio Cândido Ribeiro, Cândido José Carneiro, Joaquim Ribeiro de Magalhães, Francisco Pinto da Fonseca, Francisco Vilela e Manoel Baptista de Melo. O correio, entre a corte e Pouso Alegre, além de pontos intermediários, passa na freguesia de 3 em 3 dias. É por ele que é feita toda a nossa correspondência.

(Baseado em um almanaque datado de 1874)

Esta reportagem é um oferecimento de:

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Chiquita, medianeira silenciosa

D. Chiquita foi uma das mais ricas personalidades que viveram em Santa Rita. Seu nome de origem foi Francisca Celira da Silva. No princípio da década de 1940, casada, acrescentou-se-lhe o nome  Dias, e passou a residir  nesta cidade, terra de seus filhos, agraciando-a  por todos os anos de sua vida, com as messes de um fecundo trabalho comunitário, vindo a falecer aos 27 de junho de 1993.

As responsabilidades que assumiu em toda a sua vida ocuparam os espaços de uma dinâmica social de grandes proporções, iniciando-se nos dias de sua infância e estendendo-se à idade adulta com um vultuoso acervo de realizações filantrópicas nas sociedades em que viveu. Tendo-se em vista o seu intenso esforço humanitário e suas obras sociais a favor desta comunidade, a Câmara Municipal de Santa Rita do Sapucaí, em 1985, outorgou-lhe  o Diploma de  Cidadania Santarritense.

É do conhecimento geral que D. Chiquita foi muito respeitada pelas suas atenções com todos, mas, quem foi D. Chiquita? Para aqueles que não tiveram o privilégio de tê-la conhecido, transcrevemos alguns traços de sua personalidade.

Segundo os princípios que nortearam sua vida, o anonimato seria o seu lugar; pelo menos sua vontade o escolheria, pois foi uma das pessoas mais discretas que viveu nesta terra. Contudo, à custa dos inúmeros benefícios prestados às famílias, notabilizou-se no conceito da maioria popular. Jesus dizia aos seus beneficiados: “Vá e não o conte a ninguém” e todos saiam contando o milagre recebido. Os tempos mudaram, a psicologia humana permanece e com a humilde senhora, os fatos sociais dessa linhagem não seriam diferentes.

A lembrança física de D.Chiquita assenta-se sobre sua imagem viva e serena; sua voz era delicada, de entonação baixa e de fala pausada. Era dotada de invulgar paciência. Sorria algumas vezes. Sua expressão moral, no estofo de sua alma bondosa, irradiava-se em contagiante simpatia, uma vigorosa centelha do seu interior iluminado. Amava as crianças de forma especial; protegia os animais,  conversava com as plantas e os pombos, que  vinham  pousar  sobre  seus ombros e suas mãos.

Discorrer, embora sucintamente a respeito de sua pessoalidade, falar de suas aptidões, ou citar alguns atos que a enobreceram, não é tarefa das mais fáceis: exige senso ético e não menor responsabilidade. 
                
Rever uma memória de elevada envergadura, é um procedimento que deve ser colocado sob o compromisso da verdade, considerando que interpretações mal conduzidas e julgamentos às pressas, sem os conhecimentos que os legitimem, lamentavelmente, ainda movem os territórios metafísicos que cercam os iluminados deste mundo,

Não obstante, essa  página  faz-se portadora desse compromisso, embora  não vá além de um suave toque  sobre a superfície das páginas de vida, que fizeram o quotidiano de lutas redentoras dessa singular mulher. Ninguém ignora que Da. Chiquita possuía extraordinários dons paranormais e que, sobretudo, foi senhora das mais elevadas virtudes cristãs. Sua infância caracterizou-se por uma fase pródiga de acontecimentos que a notabilizaram como detentora das mais raras virtudes cristãs, assentadas sobre um senso ético não comum às crianças. Seu patrimônio moral e o acervo de sua inteligência constituíram-se em verdadeiro anteparo às dificuldades das pessoas de boa fé. Almas aflitas querendo obter os favores divinos, apoiavam-se  na criança profundamente religiosa. Expunham-lhe os seus problemas, pediam conselhos, queriam soluções, uma situação mais comum ao quotidiano dos paranormais adultos. Esse quadro, todavia, representara parte ativa de sua vida de criança - um ser em formação - o que faz a fundamental diferença no seu contexto psicocultural.

Natural de Varginha, passou sua infância na cidade de Careaçu. Nessa comunidade vizinha, recebia as atenções, as palavras de apoio e as preces de seu padrinho, o bondoso pároco Pe Carmello D’Ângelo, quando sentia-se sozinha com sua paranormalidade de grande alcance, mas que a fazia sofrer muito, devido a sua precocidade e à ignorância dos seus fundamentos. Então, Pe Carmello, pacientemente, lhe dizia: “quando sentir-se mal com essas coisas estranhas, venha a mim, que eu a ajudarei a rezar. Não conte a mais ninguém porque o mundo é mau e não saberá compreendê-la e respeitá-la. Mas eu sei.” Pe Carmello, cuja memória ela sempre venerou,  foi uma das mais profícuas amizades que coroou  de  bondosa assistência a sua infância.

Muito jovem e casada, mudou-se para Santa Rita e, alguns anos depois, passou a receber instruções de pessoas amigas a respeito de seus dons. Nesse período, os doentes vinham a sua casa procurar alívio aos seus males. Com os filhos pequeninos, D.Chiquita preocupava-se com o contágio de enfermidades de todos as etiologias, pela presença de seus portadores à sua porta, procurando ajuda. Alguns anos depois, com grande sacrifício e auxiliada por companheiros de fé, conseguiu fundar o Centro Espírita Amor à Verdade Mãe Maria, uma casa simples, pequena, na Rua Antônio Telles, mas o lugar em que inúmeras pessoas vindas de todas as partes, aos sábados, eram beneficiadas por expressões fenomênicas de cura, sob a singela imposição de suas mãos.

Para completar esta página, a respeito de seus atos cristãos, pode-se dizer, resumidamente, que Da. Chiquita foi silenciosa, porém determinada em suas convicções, responsáveis pela sua assistência pessoal aos necessitados de todos os caminhos. Manteve-se nesse trabalho de doações pessoais  cristãs, todos os dias do ano, por todos os anos de sua vida, desde as primeiras horas da manhã. Diríamos de passagem, que D. Chiquita soube transcender da fenomenologia, e cuidar de seu amor piedoso no retiro de sua fé, não permitindo as interpretações do entusiasmo a seu favor, mas única e puramente, as da concessão divina aos que sofriam.

Para ela, tudo era muito simples e natural. Mantinha-se modesta, discreta e sincera, em todos os seus atos. Se o atendimento bem sucedido retratasse um fenômeno raro, imediatamente se impunha mediante as palavras de admiração e louvores à sua pessoa, fazendo prevalecer o caráter natural do fato, admitindo exclusivamente as bênçãos de Nosso Senhor. E dizia com sua delicadeza: “o que  houve, foi a presença de  um  bem, vindo a favor de uma cura. Se está feliz, muito bem, agradeça a Nosso Senhor e não faça murmurações.(comentários) Sinta, sim, as alegrias do cristão sincero, mas em secreto. Agradeça de joelhos ao Nosso Pai que é bom e amoroso. Foi Ele quem concedeu essa cura.” (ou concedeu a orientação que demoliu as dificuldades, etc). Todos os seus gestos cristãos refletiam, sem dúvida, a piedosa assistência divina sobre as almas aflitas que se beneficiavam com a presença do Grande Amor sobre o simples toque de suas mãos. Possivelmente, em vista dos inconfundíveis benefícios de seus dons a serviço de todos, gratuita e indistintamente, que os mais educados consideravam-na  um instrumento da Saúde, do Bem e da Paz, a serviço de Deus. 
 
Texto gentilmente cedido pela amiga Ilma de Faria Dutra.

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